São Paulo, 20 de Maio de 2013
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Edição nº 02 » Francisco Alves Filho
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RAIZ DA QUESTÃO

A CULPA É DO FUNK.

QUE ME DESCULPE HERMANO VIANNA, MAS A ASSOCIAÇÃO DO FUNK COM O TRÁFICO NO RIO DE JANEIRO NÃO É DE HOJE - E NÃO É FRUTO DO PRECONCEITO.

POR FRANCISCO ALVES FILHO

Discordar de Hermano Vianna não é fácil. É um estudioso sério e, além de tudo, um cara bem-intencionado. Cansei, no entanto, de ouvir calado os reiterados ataques que faz aos que não concordam em colocar o funk carioca no altar das cocadas pretas. Hermano estuda muito, e por isso debater com ele é tão difícil. Não sou estudioso, sou jornalista. Vou usar os argumentos que costumo esgrimir no dia-a-dia: os fatos.

Em seu artigo no primeiro número da revista RAIZ., ele conta de uma reunião em 2002 na qual alguns excluídos sociais renegaram o funk. Pelo seu raciocínio, essa atitude (compartilhada pelos “preconceituosos” da elite) empurrou os funkeiros para os braços do banditismo. Aí está um grave erro factual.

A associação de alguns (nada de generalizar) funkeiros aos comandos criminosos vem sendo denunciada pelo menos desde o início da década de 1990. Em reportagem feita em 1993 no baile funk da Furacão 2000, pude constatar, ali no clube Boêmios de Irajá, que as próprias galeras se associavam às facções, fazendo gestos, gritando provocações e... brigando. Brigando muito. É só folhear os jornais da época para ter certeza de que a ligação de alguns funkeiros com as facções é coisa antiga.

Outra correção: proibidão também não é invenção de hoje. Em 2001, fiz uma reportagem para IstoÉ mostrando os sites em que MCs desfiavam seus proibidões, exaltando o Comando Vermelho e seus métodos violentos. Checar essas datas é importante. A questão é saber se os funkeiros passaram a criar proibidões porque foram rejeitados ou se foram rejeitados porque já no início algumas músicas teciam elegias ao tráfico.

Nos últimos tempos, o funk tem conquistado bons espaços na mídia. Uma das figuras carimbadas na telinha é Mr. Catra, que apresentou quadros no Fantástico. Este senhor, por exemplo, faz desde o fim da década de 1990 proibidões em que paparica os bandidos de alguns morros e – pior – incentiva o extermínio de inimigos e delatores, os chamados X-9. As letras de Catra falam por si, mas vou poupar o leitor. Na telinha da TV, ele aparece comportado e diz que suas músicas apenas retratam a realidade das favelas.

Pois conheço muitos moradores de favelas que vivem realidade bem diferente. Há uma vertente do funk carioca que trata de assuntos mais corriqueiros, sonha com melhores dias, maneja a poesia e o humor. É uma música que tem pouco espaço nos bailes e recebe pouca atenção dos acadêmicos. Quem sabe, a professora e o líder comunitário, mencionados no artigo de Hermano, gostassem de divulgar esse tipo de funk?

Qualquer um, como eu, que conteste os argumentos de Hermano será visto como antipático e corre o risco de receber daqueles que detêm o monopólio do entendimento da alma popular a pecha de reacionário. Fazer o quê? Eu continuo achando o Hermano um cara legal. É fundamental integrar favela e asfalto, tanto social como culturalmente. Algo, no entanto, me diz que esse tipo de funk que costumo ouvir nas TVs e no rádio encanta mais a uma turminha da classe média do que ao grosso das comunidades carentes. Aí, concordo com o Hermano: quando os representantes da elite – como ele próprio – se metem a dizer o que é bom para o povo, geralmente dá errado.

Francisco Alves Filho é editor assistente da sucursal carioca da revista IstoÉ.