São Paulo, 20 de Maio de 2013
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Edição nº 02 » Cacá Diegues
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RAIZ DA QUESTÃO

É DIFÍCIL FAZER CINEMA DIANTE DE UM LAGO SUÍÇO.

PARA O CINEASTA CACÁ DIEGUES, AS PAISAGENS, A CULTURA E AS DESIGUALDADES
BRASILEIRAS ESTIMULAM A PRODUÇÃO DE UM CINEMA CRÍTICO.
ENTREVISTA A THEREZA DANTAS


Que dicas o sr. pode dar para cineastas de periferia?
Não se pode ter sentimentos piedosos, nem fazer demagogia paternalista em relação a esse novo fenômeno de produção audiovisual nas periferias urbanas do Brasil. Os filmes não serão bons porque são feitos por favelados, mas sim porque são bons mesmo. É preciso exigir sinceridade e qualidade de cada filme produzido, como de qualquer obra de arte que se respeita.

“Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”; a velha máxima do Cinema Novo funciona na periferia?
A câmera continua na mão ou no tripé, tanto faz. Mas as idéias agora não são anteriores ao filme, elas são o resultado de um testemunho instantâneo do que está acontecendo agora, neste momento. E os autores dos filmes não são mais observadores indignados, mas as próprias vítimas do abismo social.

Fazem cinema apesar das adversidades.
O Brasil tem uma evidente e inesgotável vocação para a produção audiovisual. Deve-se isso a vários fatores, entre os quais o estímulo de nossas paisagens, cultura e problemas endêmicos. É difícil fazer um cinema inquieto, enérgico e crítico diante de um lago suíço. Já diante do que vemos acontecer no Brasil, diante do que o Brasil é e tem sido nos últimos séculos, esse estímulo é imediato.

No país das telenovelas e dos programas de auditório, do império da televisão, enfim, seria mais compreensível uma produção audiovisual voltada para clipes, programas de TV etc., e não para o cinema.
O cinema é o avôzinho dessa grande família fundada por ele, a família do audiovisual, que gerou televisão, games, internet etc. No fundo, é tudo mais ou menos a mesma coisa, mais ou menos nos mesmos suportes, só que em diferentes formatos. O cinema é o patriarca disso tudo e continuará iluminando a produção de audiovisual com sua experiência e sabedoria.

Conhece o cinema indiano? O cinema brasileiro poderia chegar no mesmo nível de produtividade? Trata-se de um cinema periférico?
Não sou um especialista em cinema indiano, mas conheço um pouco de sua economia e qualidade artística. O que chamamos de Bollywood é cinema de “mainstream”, que tem para a Índia os mesmos efeitos de Hollywood para a América. Não acho que seja um modelo transportável para o Brasil.