ATOS
PLANO GERAL
A seguir, oito oficinas de audiovisual espalhadas pelo Brasil dão o exemplo do que o cinema pode fazer pela periferia – e o que a periferia pode fazer pelo cinema. POR LIANA MAZER E LUISA PAIVA
CINE FAVELA. COM UMA CÂMERA EMPRESTADA NA MÃO E “VAQUINHAS” PARA JUNTAR DINHEIRO, PROJETO CHAMA A ATENÇÃO DA CRÍTICA E DE MUSA DE ALMODÓVAR.
Eles têm aparecido freqüentemente em jornais e emissoras de TV, volta e meia são convidados para falar em universidades sobre seu excelente trabalho de inclusão social. Mas nem eles, os próprios idealizadores do Cine Favela, sabem como o projeto se tornou tão conhecido. Ele nasceu silencioso, da preocupação de alguns moradores da favela de Heliópolis, Zona Sul de São Paulo, com sua comunidade, aproximadamente 140 mil habitantes de baixa renda.
Em 2003, Vladimir Modesto, Reginaldo de Tulho, sua esposa Geneci de Tulho, Gildevan Felix e outros moradores uniram forças e sua paixão por cinema para realizar um filme sobre a precária situação da saúde no local. De um roteiro, 200 voluntários, uma câmera emprestada e uma creche como locação, nasceu o primeiro vídeo inteiramente produzido pela comunidade de Heliópolis, o média-metragem Uma gota de sangue.
A produção foi um sucesso, e hoje pode ser encontrada em praticamente todas as locadoras da favela. Mas as dificuldades encontradas foram muitas, e o mesmo grupo de moradores decidiu se organizar em forma de associação, a ACAHS – Associação Cultural Artística de Heliópolis e Sacomã, presidida por Reginaldo de Tulho. Por meio de “vaquinhas”, rifas, “bicos” aqui e ali, foi possível alugar uma sala para ser a sede da associação. Organizaram cursos de teatro, música, dança, capoeira, reaproveitamento alimentar, mas o cinema permaneceu como foco principal. E em agosto de 2004, ainda sem patrocínio, foi criado o Cine Favela, com o objetivo de trazer até a comunidade projeção de vídeos, documentários, curtas e longas-metragens.
Todos esses méritos já haviam chamado a atenção da imprensa, mas nada comparado à fama que ganhou em outubro de 2005, quando receberam uma célebre visita, a atriz espanhola, protagonista de diversos filmes de Pedro Almodóvar, Victoria Abril. Em São Paulo para lançar seu CD Putcheros do Brasil, a atriz ficou sabendo que um grupo de cineastas ia conferir as filmagens de uma produção na periferia e imediatamente se juntou a eles. Tratava-se do segundo vídeo produzido pelo Cine Favela, Excluído da sociedade, que pretende mostrar como é a vida do jovem que mora numa periferia onde não há investimentos em infra-estrutura, lazer e principalmente oportunidades de trabalho. O filme dependeu do mesmo esquema de Uma gota de sangue (voluntários, câmera emprestada, bicos e rifas), e todos os domingos, durante sete meses (de novembro de 2003 a junho de 2004), 56 pessoas escolhidas para atuar freqüentaram uma oficina de interpretação.
Encantada com tanta dedicação e seriedade, Victoria não hesitou em se oferecer para fazer uma ponta. Encenou uma mulher desesperada que grita pela polícia e aproveitou para dar umas dicas de direção a Vladimir Modesto, diretor cultural do projeto. Mas nem mesmo depois da publicidade que a visita da atriz lhes rendeu veio o patrocínio. O único resultado foi a oferta do SESC Ipiranga, que a partir de dezembro de 2005 se ocupou de projeções semanais do Cine Favela. Ajuda financeira, só conseguiram uma vez, da Caixa Econômica Federal, para o Festival Cine Favela de curtas-metragens, realizado no dia 14 de agosto de 2005.
Excluído da sociedade começou a ser gravado na madrugada do dia 23 de janeiro de 2005. Infelizmente, por causa das dificuldades financeiras, só deve ficar pronto no começo de 2006.
Cine FavelaRua da Alegria, 34A, Heliópolis – São Paulo – SP. Tel.: (11) 6855-2223 (Vladimir Modesto) / (11) 6914-2275 (Reginaldo) www.acahs.amatriz.com.br
MARÉ ALTA. POR UM CANAL DE EXPRESSÃO IDEOLÓGICA E ARTÍSTICA.
O Projeto Arrastão foi fundado em 1968, na periferia da Zona Sul de São Paulo e atua nas áreas de educação, cultura e mobilização social. Há cinco anos, a ONG lançou sua oficina de audiovisual; um espaço de interação e diálogo entre jovens de 16 a 21 anos e sua comunidade. O objetivo não é apenas mostrar algo novo, mas disponibilizar ferramentas para que os alunos possam desenvolver projetos de vídeo, e de vida.
Nesse contexto foi criada a Agência de Comunicação Maré Alta, para melhor organizar as oficinas e outras ferramentas de comunicação, permitindo o desenvolvimento dessa área dentro da instituição.
Ainda em fase de implementação, a agência pretende criar um espaço para a formação de jovens em áreas específicas da comunicação, como vídeo, rádio e jornal impresso. A meta é desenvolver nos jovens das classes mais desfavorecidas uma reflexão crítica da realidade, formando assim multiplicadores de informação.
Um dos resultados da oficina é o vídeo Palavras e Músicas, produzido em 2005 e exibido no 16º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo na categoria Formação do Olhar, e na Mostra do Audiovisual Paulista, ocorrida no início de dezembro de 2005 no Centro Cultural Banco do Brasil. O vídeo discute as duas formas de expressão, e a importância delas na realidade dos jovens – a palavra constrói a idéia e a música torna essá idéia mais concreta, perceptível e acessível. O enredo surgiu de debates sobre que linguagem o jovem realmente se apropria para retratar seus pensamentos, sua percepção enquanto cidadão, e qual a melhor maneira para expressar um turbilhão de desejos, direitos e sonhos.
Os temas centrais da oficina de vídeo são a democratização da comunicação, cinema na quebrada e reflexões críticas sobre o uso do vídeo. A intenção da instituição é proporcionar um canal de expressão ideológica e artística.
As oficinas têm duração de seis meses. Concluídas as aulas, os jovens podem dar continuidade à sua formação no Núcleo de Comunicação Jovem do Arrastão. No último semestre de 2005 aconteceram as oficinas de jornal e de vídeo, que abrigam 15 jovens cada uma. A primeira oficina de rádio começará em 2006.
Agência de Comunicação Maré Alta / Projeto Arrastão Rua Dr. Joviano Pacheco de Aguirre, 255, Campo Limpo – São Paulo – SP. Tel.: (11) 5841-3366 www.arrastao.org.br
KINOFORUM. AUDIOVISUAL COMO UM DIÁLOGO ENTRE O INDIVÍDUO E O COLETIVO.
As Oficinas Kinoforum de Realização e Produção Audiovisual nasceram a partir de uma experiência vivida pelos organizadores do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo. Com o crescimento significativo do festival, que começou no Museu da Imagem e do Som (MIS) e já ocupa mais sete salas em São Paulo, os realizadores decidiram integrar outras regiões da cidade, inclusive as mais carentes, passando a fazer exibições públicas em praças, ruas, bares e casas noturnas. “Acontece que começamos a perceber que era um projeto de mão única. Levamos para as comunidades as produções, filmes premiados, bem produzidos, mas o diálogo das pessoas com esses filmes não se estabelecia de forma integral. Primeiro porque não é exatamente aquilo que é premiado no festival que interessa a esse público. E depois, o interessante é que eles pudessem entender um pouco mais da linguagem”, explica o cineasta Christian Saghaard, um dos responsáveis pelo festival e o Kinoforum.
Patrocinadas pela Petrobras, as oficinas já atingiram mais de 20 regiões da cidade. Em cada área são selecionados 20 pessoas que participam do módulo 1. No primeiro momento da oficina são apresentados filmes, clipes, curtas e vídeos produzidos em oficinas anteriores e conceitos básicos da linguagem cinematográfica. Cineastas jovens, recém-formados, e às vezes experientes e até conceituados, ministram algumas aulas. Na seqüência, os jovens são divididos em grupos que vão a campo registrar suas idéias. E, finalmente, com a ajuda de profissionais e ex-alunos, as equipes editam seus curtas. “Nós ensinamos e dizemos o que funciona ou não. Mas não limitamos temas nem formatos. Eles devem aprender a acertar e a errar”, afirma Christian. “Muitas vezes achamos que alguma idéia deles vai dar errado, e, no final, fica ótimo.”
Tanto os vídeos ficam ótimos, que vários deles já participaram de mostras dentro e fora do país. O curta Aqui Fora conquistou o segundo lugar na Mostra de Vídeo Brasileiro de Santo André; Oswaldo São Paulo e Televisões receberam menção honrosa no Festival Internacional de Curtas-Metragens do Rio de Janeiro (2003) e na Mostra do Filme Livre, também no Rio, respectivamente. Além disso, uma seleção de vídeos das oficinas foi exibida nos festivais Tampere International Short Film Festival, na Finlândia, e Rencontres Cinemas D`Amerique Latine de Toulouse, na França. O curta Defina-se também foi selecionado para o Festival de Toronto, no Canadá, um dos melhores do mundo.
Voltando às oficinas, os alunos mais talentosos e dispostos passam para o módulo 2. Nesta fase, as funções de produção são divididas e cada aluno escolhe sua área. As aulas são mais específicas e, segundo Christian, um dos objetivos é formar realizadores, profissionais para o mercado de trabalho, assistentes de câmera e edição. Mas a intenção maior é que eles se tornem agentes audiovisuais.
Associação Cultural Kinoforum Rua Simão Álvares, 784-2 – São Paulo – SP. Tel.: (11) 3034-5538 www.kinoforum.org
VÍDEO NAS ALDEIAS. QUEBREM-SE OS ESPELHOS, OS ÍNDIOS SE VÊeM ATRAVÉS DAS LENTES.
O projeto da ONG Vídeo nas Aldeias nasceu em 1987, pelas mãos do antropólogo e documentarista Vincent Carelli, que pretendia, por meio do vídeo, ajudar povos indígenas a recriar sua imagem e resgatar sua identidade. A primeira experiência foi com os Nambiquara, que se retrataram como gostariam de ser vistos, tanto por outros povos como por não-índios.
O reconhecimento internacional de alguns dos vídeos e a descoberta de que em outros países havia cineastas indígenas formados em faculdades de cinema motivaram Carelli a ampliar seus objetivos. Com o apoio financeiro de entidades como a Cooperação Internacional da Noruega, as fundações Guggenheim, MacArthur, Rockefeller e Ford, o Vídeo nas Aldeias se associou à organização do VNA, da cineasta Mari Corrêa, e passou a dar aulas de roteiro, captação de imagens, análise crítica e edição. Os filmes lidam com a situação do índio contemporâneo, aproximam os mais jovens das tradições e promovem o intercâmbio entre diferentes povos.
O acervo atual conta com uma coleção de 52 filmes, vários deles premiados, como Wapté Mnhõnõ, Iniciação do Jovem Xavante, que ganhou o Troféu Jangada e o Prêmio Manuel Diegues Júnior na 6ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, no Rio de Janeiro; o X International Festival of Ethnographical Films, em Nuoro, na Itália; e o Gran Prêmio Anaconda, na Bolívia.
Atualmente um dos objetivos é a conquista de um espaço permanente para os povos indígenas na televisão pública educativa e a capacitação dos autores para administrarem seus direitos sobre o que já é o maior arquivo videográfico sobre a realidade indígena do Brasil.
Vídeo nas Aldeias Tel.: (81) 3493-3063 www.videonasaldeias.org.br
NÓS DO MORRO. PASSADA A URGÊNCIA DE SE EXPRESSAR, CHEGA A HORA DE PROFISSIONALIZAR.
O grupo Nós do Morro foi fundado no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, em 1986, pelo ator e diretor Guti Fraga. Começou como uma oficina de teatro, acabou se tornando um dos mais importantes Pontos de Cultura do país. “Não fundei apenas um projeto, mas um pensamento coletivo e solidário”, diz Fraga. Em 1995, os cineastas Rosane Svartman e Vinícius Reis uniram-se ao grupo para montar um núcleo de cinema, no qual trabalham, voluntariamente, até hoje.
Gustavo Melo é um dos cineastas que aprenderam o ofício através da ONG. Hoje, é monitor de novas turmas, e já realizou dois curtas-metragens em película: O jeito brasileiro de ser português e Picolé, pintinho e pipa, que acabou de ser rodado. Luciana Bezerra, mulher de Gustavo, dirigiu o terceiro curta em película do grupo, Mina de fé, que recebeu o prêmio de Melhor Curta no 37º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, em 2003. Para Gustavo, as oficinas ensinam que não basta ter acesso aos equipamentos audiovisuais, é preciso planejar. “Se você acha que é só apertar o .REC e pronto, termina gastando mais do que devia”, diz ele, que enfatiza a necessidade de ensinar os aspectos técnicos da arte cinematográfica, como a edição. “Num primeiro momento, o cinema de periferia no Brasil estava mais preocupado com a atitude, até mesmo pela urgência de se expressar. Não havia maior preocupação com o visual, a iluminação, o enquadramento, mas com a verdade. Mas acho que o público vai começar a exigir maior qualidade estética, porque foi ‘educado’ pelo cinema americano. Vai ser preciso estudar mais”, diz o cineasta.
Em 2004, o núcleo de formação audiovisual do Nós do Morro foi selecionado pelo Ministério da Cultura para ser Ponto de Cultura, pelo que foi equipado com uma câmera e uma ilha digitais, cedidas pelo BNDES. E pelos projetos do idealizador Guti Fraga, o Nós do Morro vai abrir núcleos em outras cinco cidades no interior do estado: Nova Iguaçu, Miracema, Japeri, Cachoeiras de Macacu e Saquarema.
Nós do Morro Tel.: (21) 3874-9411 / 3874-9177 / 2512-4758 www.nosdomorro.com.br
NÓS DO CINEMA. A IMAGEM COMO AFIRMAÇÃO OU MANIPULAÇÃO DA IDENTIDADE.
Nascido da oficina de interpretação que recrutou jovens de comunidades de baixa renda do Rio de Janeiro para o elenco de Cidade de Deus, o grupo Nós do Cinema está em atividade desde 2001.
Com sede em Botafogo, a ONG promove a inclusão social desses jovens por meio do cinema e da tecnologia, e tem como objetivo estimular os alunos a pensar sobre as possibilidades do audiovisual, como ferramenta de afirmação da identidade ou como instrumento de aculturação da sociedade.
A metodologia do Nós do Cinema é apresentar os vários segmentos do audiovisual, desde a televisão até o cinema, em todas as áreas técnicas: roteiro, direção, figurino, arte etc. Conhecendo o processo inteiro, os alunos têm consciência de como produzir um programa jornalístico, uma novela, um filme, e como o produto final é direcionado para um público específico. Em tudo, há a preocupação de refletir com os alunos a participação do cinema na sociedade através da história. “Fazemos um resgate da história do cinema brasileiro e mundial, falamos da importância dos movimentos políticos do país, principalmente o Cinema Novo, a pornochanchada, e como ela contribuiu para formar uma imagem negativa da mulher no exterior”, explica Luís Nascimento, 27 anos, coordenador executivo do Nós do Cinema, que também participou do elenco de Cidade de Deus como um integrante do bando de Zé Pequeno.
As aulas da oficina se dividem em cinema (para jovens de 17 a 22 anos) e artes dramáticas (de 12 a 16 anos), e têm duração de um ano. Ministradas tanto por ex-alunos como por profissionais do cinema e de educação, são gratuitas, e os jovens ainda ganham vale-transporte e uma refeição.
Em 2005, foram produzidos cerca de dez curtas, na maioria dos casos, documentários. Os temas são propostos pelos próprios alunos. “O processo de discussão de questões, como a dos camelôs ou a gravidez na adolescência, estimula o interesse da turma pela realidade”, diz Nascimento. Os filmes são exibidos nas comunidades e em escolas públicas, mas a maioria vai para festivais, como a Mostra da Geração Futura e o Curta o Curta, no Rio de Janeiro; o Kinoforum, em São Paulo; o Cine Ceará, o Festival do Mercosul de Florianópolis, o Festival CinemAligre, de Paris, entre outros. Dentre as produções do Nós do Cinema, destacam-se os curtas Crime quase perfeito, Cidadão Silva (premiado como melhor curta no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Carlos, SP, em 2002), Conversa no banheiro e O cego, o diabo e o bom pastor.
Para 2006, o Nós do Cinema vai ampliar sua área de atuação, e começar a trabalhar com jovens e crianças de São Gonçalo, um dos municípios com menor desenvolvimento humano do estado do Rio de Janeiro.
Nós do Cinema Rua Voluntários da Pátria, 53, 2º andar, Botafogo – Rio de Janeiro – RJ. Tel.: (21) 2226-2668 / 2537-1847
BH CIDADANIA. INCLUSÃO SOCIAL E COMBATE À VIOLÊNCIA por meio DO VÍDEO E DA ARTE.
A Oficina de Audiovisual BH Cidadania é um amplo projeto de inclusão social da prefeitura de Belo Horizonte, que desde julho de 2002 atua em áreas socialmente vulneráveis das nove regiões administrativas da cidade. Conduzido pela Secretaria Municipal da Coordenação Política Social, o projeto envolve as sete secretarias temáticas da área social (Abastecimento, Assistência Social, Cultura, Educação, Esportes, Direitos de Cidadania e Saúde).
A proposta da Secretaria Municipal de Cultura para o BH Cidadania é o Programa de Formação e Capacitação Cultural, que visa desenvolver ações de sensibilização e iniciação artísticas voltadas para um público de crianças e jovens. O audiovisual foi uma das áreas que demonstraram grande impacto no programa, e sobre o tema foi elaborada uma oficina, inicialmente organizada e administrada pelo cineasta Sávio Leite até 2004 e hoje sob a coordenação de Hélio Passos.
A oficina recebe jovens entre 13 e 21 anos, divididos em turmas de aproximadamente 15 alunos. Esses adolescentes, que tiveram pouco ou nenhum contato anterior com o vídeo, aprendem a lidar com tecnologias de gravação e reprodução da imagem. Durante o curso, são apresentados os diferentes gêneros de cinema e vídeos produzidos em outras oficinas de inclusão audiovisual. Além disso, são trabalhados conceitos técnicos como iluminação e enquadramento, fotografia, história do cinema e sua linguagem. A técnica empregada é aprender fazendo, e logo na primeira semana os alunos começam a produzir. A idéia é a criação de vídeos que os ajudem a repensar seus ambientes e a construir novas perspectivas para sua vida e a de suas comunidades, mas sempre com a preocupação de conferir uma estética artística aos vídeos. Dos seis filmes mais recentes produzidos pelas oficinas, três são experimentais: Alto em 25 segundos, Resgate do Suicida e Enigma.
Os outros três, realizados entre outubro de 2004 e abril de 2005, são mais próximos do documentário: A escola Zangada, Os esquecidos e um vídeo institucional sobre o projeto BH Cidadania.
Infelizmente, por problemas de arrecadação de fundos, as oficinas não conseguem se programar a longo prazo e acabam tendo de ficar alguns meses sem atividades.
BH Cidadania / Fundação Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte Rua Sapucaí, 571, Floresta – Belo Horizonte – MG. Tel.: (31) 3277-4620 www.pbh.gov.br
INSTITUTO CRIAR DE TV E CINEMA. QUEBRANDO PRECONCEITOS, DE QUEM FAZ E DE QUEM VÊ O CINEMA DA PERIFERIA.
“Luz, câmera e ação social” é o slogan do Instituto Criar de TV e Cinema, investimento filantrópico do apresentador Luciano Huck, em funcionamento desde junho de 2004. O estúdio-escola ocupa 3 mil metros quadrados no bairro do Bom Retiro, centro de São Paulo. As instalações, que custaram R$ 1,5 milhão, envolvem biblioteca, videoteca, marcenaria, sala de projeção e dois estúdios.
Com planejamento pedagógico, o instituto não só ensina um novo meio de expressão, mas principalmente capacita jovens de baixa renda para o mercado audiovisual. As aulas são verdadeiras oficinas, divididas entre básicas (Leitura dos Meios e Oficinas de Criatividade e Expressão, Inclusão Digital, Inglês, Projetos e História da TV e do Cinema) e específicas (Computação Gráfica, Cenografia, Cabelo e Maquiagem, Edição, Figurino, Iluminação, Áudio, Câmera, Produção e Roteiro). Todos os alunos passam pelas oficinas básicas e escolhem uma específica. O curso tem duração de um ano, e, de quatro em quatro meses, formam-se grupos entre os alunos de todas as áreas para a produção de vídeos.
É nesse momento que o coordenador pedagógico Maurício Cardoso tenta “abrir a cabeça” dos alunos. “Pedimos para que gravem uma cena de novela, que geralmente sai no estilo Rede Globo, e, ao mesmo tempo, incentivamos novos formatos e roteiros originais”, diz. “Passamos a maior diversidade possível de linguagens, tentamos quebrar os preconceitos – deles e nossos.”
Cardoso conta que, quando leva produtores e outros visitantes ao estúdio, há sempre uma expectativa muito baixa, pois poucas pessoas acreditam no potencial desses jovens. Mas a capacidade técnica deles termina impressionando todos. “As pessoas também não estão acostumadas a ver pobre falando de pobre num vídeo bem-feito. Isso assusta.”
Como trabalho de conclusão de curso, os jovens devem produzir um videoclipe com temática social, o que tem rendido ótimos e originais frutos. É o caso de Dia de visita, que conta a história do irmão da produtora Cláudia, que está no presídio de Avaré, em São Paulo, e de sua família que vai visitá-lo. A música, de mesmo título, é da banda de rap Realidade Cruel, de Curitiba. Realista, bem-feito e com todos os direitos autorais, o clipe já foi exibido no 16º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, está confirmado para participar de outros festivais e tem chances de ser exibido na MTV.
Instituto Criar www.institutocriar.org
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