São Paulo, 28 de Agosto de 2014
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Edição nº 01 » Rabecas
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ÍCONES

ISTO NÃO É UM VIOLINO

Um instrumento que pode ter três, quatro ou seis cordas. Que pode variar de formato, de tamanho, de afinação. E que se espalhou por todos os cantos do Brasil. Conheça a rabeca. Por Alexandre Bandeira fotos Ricardo Teles

O CORPO DO INSTRUMENTO é rústico, um pouco áspero ao toque. O arco pode vir na madeira crua mesmo, sem verniz. O som é agudo, arranhado, sujo. E era exatamente essa a intenção de quem o construiu.
“Esse é o colorido especial da rabeca”, diz Sérgio Roberto Veloso de Oliveira, o músico pernambucano Siba, ex-vocalista da banda Mestre Ambrósio, hoje em carreira solo. “Um tocador de violino passa anos aprendendo a limpar os timbres, mas o rabequeiro não limpa, está mais preocupado com a pancada do braço, o ritmo, os sons rasgados.”
Como Siba, a grande maioria dos rabequeiros faz questão de desmentir a aparente superioridade do violino sobre a rabeca, argumentando que ambos têm suas potencialidades. E defendem, entusiasmados, a autonomia de uma em relação ao outro:
“A rabeca é um instrumento.

Não é uma imitação de instrumento, não é um violino mal acabado. Ela é outro instrumento”, dizia o músico e professor de rítmica da Unicamp José Eduardo Gramani. Em 1995 Gramani deu início a uma pesquisa que o levou a documentar o processo de construção de quatro luthiers brasileiros: Martinho dos Santos (Morretes, Paraná), Julio Pereira (Paranaguá, Paraná), Arão Barbosa (Iguape, São Paulo) e Nelson dos Santos, conhecido como Nelson da Rabeca (Marechal Deodoro, Alagoas). Mas Gramani veio a falecer antes de escrever sobre o material coletado, e coube à sua filha, Daniella Gramani, concluir o trabalho, organizando a edição do livro Rabeca, o som inesperado (2002) a partir dos registros fotográficos e entrevistas feitas pelo pai.

O título do livro refere-se ao principal interesse do pesquisador – e revela a característica que distingue a rabeca não só do violino, como de quase todos os instrumentos: a ausência de padrões, seja no processo construtivo, no material utilizado, no formato, tamanho, número de cordas ou afinação. Por isso o “som inesperado”: uma rabeca dificilmente produzirá som igual ao de outra, ainda que construídas pelo mesmo luthier.
“Tudo interfere no som da rabeca, até a cola”, diz mestre Salustiano, um dos mais conhecidos luthiers do país. “Se você põe a cola para cozinhar por dez minutos, e outra por 11 ou 12 minutos, isso interfere no som. Para melhor ou para pior.”

Essa imprevisibilidade da rabeca dificulta enormemente a sua execução, e faz com que o aprendizado do tocador seja tão intuitivo quanto metódico, se não mais. Exemplo disso é que não há, na paleta de uma rabeca (corresponde ao espelho do violino), nenhuma indicação da altura correta das notas, ao contrário de outros instrumentos de cordas dedilhadas, que contam com trastes para indicar onde posicionar os dedos. O aluno precisa descobrir por conta própria a altura da afinação ideal; e para esse tipo de aprendizado, não existe um bê-á-bá.

“Rabeca se aprende observando, convivendo com os mestres, conhecendo as afinações adequadas para cada ocasião”, diz Siba, que arranhou os primeiros acordes na companhia de grandes rabequeiros como Luís Paixão, Mané Pitunga e seu João Salustiano, pai do mestre Salustiano. “E mesmo assim não existe um jeito certo de tocar, cada rabequeiro encontra a afinação de sua preferência.”

Do contraste entre a ausência de regras da rabeca e a exatidão no tocar e no construir um violino, nasceu provavelmente a idéia de que este último seria superior. Além disso, a rabeca como um “violino mal acabado” é uma noção diretamente associada à outra, a de que ela é instrumento das classes mais pobres.
Ambas têm um fundo de verdade, que remonta à origem da rabeca.

SEU APARECIMENTO teria sido anterior à produção dos textos bíblicos, tendo existido em todas as grandes civilizações da Ásia e da África, em algum momento de suas histórias, um pequeno instrumento de cordas tocado por um arco.
A rabeca teria viajado até a Europa, durante a dominação dos mouros, onde se tornaria bastante apreciada nas mãos dos menestréis medievais. Mas com o surgimento das primeiras cidades e a profissionalização dos mestres-artesãos, um novo instrumento apareceria, provavelmente na Itália, para roubar da rabeca as atenções da nobreza: o violino. Era essencialmente o mesmo instrumento, só que construído com uma técnica e ferramentas mais precisas, e com um acabamento perfeito, o que terminava produzindo o timbre limpo e uma execução mais rica em recursos musicais. Contudo, nas aldeias distantes dos centros urbanos, entre a população de menor poder aquisitivo, as rabecas continuariam a ser produzidas como antes, com processos artesanais mais rústicos.

Tornou-se, então, instrumento dos pobres.
“É, além do mais, dos instrumentos típicos dos cegos e pedintes urbanos”, define o livro Instrumentos musicais populares portugueses, de Ernesto de Oliveira e Benjamin Pereira (Ed. Gulbenkian, 2000). E ao cruzar o Atlântico, os portugueses trouxeram essa segmentação: “Rabeca é como chamam ao violino os homens do povo no Brasil”, diria Mário de Andrade no seu Dicionário musical brasileiro. Também José Eduardo Gramani havia notado, em sua pesquisa, que a rabeca era o único instrumento da “música folclórica” (sic) que não encontrou espaço na “música popular” (sic) brasileira.
Restrita como fosse às festas populares e religiosas, a rabeca teve força para se espalhar pelo Brasil, tendo se adaptado à cultura de cada região, dos fandangos paranaenses até os cavalos-marinhos pernambucanos, passando por reisados de Minas Gerais. Mas mesmo a barreira do mainstream já tem sido cruzada, com o trabalho de artistas como o mestre Salustiano ou Antônio Carlos da Nóbrega, que trazem notoriedade para o som rasgado do instrumento.

O fato é que para os próprios luthiers, a rabeca nunca precisou de um aval erudito para se legitimar. Sentem orgulho justamente em deter uma sabedoria distinta, um vocabulário específico (veja a página ao lado), um conhecimento que aprenderam da observação dos mestres e das próprias experimentações:
“Já tentei usar [madeira de] de mangueira, de cajueiro”, lembra Salustiano. “Hoje uso muito jenipapo, que é uma madeira idealista para isso. Tem gente que usa caxeta, pinho virado. Mandacaru também faz boa rabeca, se a gente usar junto com outra madeira, como o pinho faia, o cedro, a imburana-de-cheiro, a praíba.”

O alagoano Nelson da Rabeca, autodidata como todos, é outro afeito a experiências. É dele a rabeca mostrada na foto ao lado, que tem uma característica marcante: a ausência de laterais entre o fundo e o tampo. Para conseguir essa forma única, Nelson constrói sua rabeca a partir de um bloco maciço de madeira, que já entalha arredondado para depois cortar ao meio e desbastar o interior de cada metade. A solução torna o processo mais rápido e o instrumento mais resistente, já que conta com menos partes coladas.
Como observou o músico Luiz Fiaminghi, que colaborou com o projeto de Daniella Gramani para editar a pesquisa do pai: “Sem ter consciência, seu Nelson reinventou uma maneira medieval de construir instrumentos de corda com arco”. O luthier alagoano experimentou o novo, e ao experimentar encontrou a ancestralidade.
E é por exemplos como o de Nelson que José Eduardo Gramani, em sua pesquisa, dizia: “O fato de não existirem regras para a construção das rabecas possibilita que haja uma contínua motivação, que impulsiona o construtor no seu trabalho, o músico no seu fazer e ainda o ouvinte que usufrui a música”.
Pode-se dizer o mesmo de um violino?

Livro Rabeca, o som inesperado, org. Daniella Gramani (2002), 120 pp. Vendido exclusivamente pelo site: www.gramani.com.br

Pequeno dicionário do rabequeiro para o violinista*.
Para cada região do Brasil, uma rabeca. Para cada luthier, um vocabulário próprio. Veja como um pernambucano e um paranaense chamam as partes da rabeca, e o termo correspondente num violino.
* Extraído de depoimento do mestre Salustiano e do livro Rabeca, um som inesperado.