VIAGENS
BEM ANTES DO NASCER DO SOL, os barcos já
estão percorrendo os igarapés e furos, passando
de casa em casa em busca de sua carga. Aos
poucos, ficam lotados de cestos abarrotados de
frutos do açaizeiro. Depois chegam a portos de
pequenos municípios e são descarregados. Mas a
viagem ainda não acabou. Serão ainda mais algumas
horas em outros barcos antes que o produto
chegue a outro porto, a outra feira. Dessa vez, o
número de embarcações ancoradas e descarregando
é muito, muito maior, assim como o movimento
de trabalhadores e compradores. A singular
feira do açaí divide espaço com as incontáveis
barraquinhas que vendem ervas milagrosas do
outro lado do cais, com o artesanato, o mercado
de ferro, da carne, o mercado de peixe e um semfim
de outros produtos. Nascido no alto de uma
palmeira, em uma mata preservada à beira de algum
rio amazônico, o miúdo e escuro açaí agora
está numa cidade grande e populosa, enfrentando
o susto do movimento frenético do Mercado
Ver-o-Peso, principal entreposto da fruta. Ele chegou
a Belém. E aí é preciso abrir um parêntese: o
açaí é uma das mais importantes referências da
cultura paraense. Esqueça aquela mistura de polpa
congelada e xarope de guaraná que se vende
nas lanchonetes de academias de outras capitais.
Famoso no resto do país por seu alto teor de
vitaminas e minerais, açaí, por aqui, é uma potente
história na várzea do estuário amazônico.
São séculos de tradição no extrativismo e no
consumo desse fruto, que é colhido no alto de
uma elegante palmeira, nativa da mata amazônica.
Tarefa que muitas vezes cabe às crianças.
Ágeis e leves, elas se enroscam no tronco do açaizeiro
em busca dos cachos, sem que isso signifique
trabalho infantil. Pode-se dizer que é a manutenção
de um modo de vida familiar, em que
crianças e adultos estão integrados numa mesma
atividade. Quem explica é Mario Jardim, coordenador
do núcleo de Botânica do Museu Emílio
Goeldi. “Temos no açaí um diferencial, pois mesmo
a presença das crianças na coleta não pode
ser tida como trabalho infantil, tão combatido no
Brasil, mas sim uma atividade que eu costumo
chamar de contributiva. É ação prazerosa de preservação
de cultura. É bem diferente, por exemplo,
das carvoeiras, em que as crianças trabalham
em troca de comida e dinheiro”. Segundo ele, a
presença das crianças acaba por se tornar um elemento
de união familiar, parte do legado indígena.
Mulheres e adultos também interagem com a
“panha” dos frutos, debulha dos bagos e seleção.
O baldeador de açaí Manuel Lobato da Fonseca
Trindade, conhecido como BG, conta que ainda
de madrugada passa de casa em casa para buscar
a produção dos sítios e levá-la até o porto de
Abaeté, em Abaetetuba. De lá o açaí segue por
poucas horas até chegar a Belém. Tudo deve ser
feito “rapidola” – como ele explica –, já que o produto
é perecível e deve chegar ao seu destino em
até 24 horas. O transporte por definição é o barco,
que segue por furos e igarapés até alcançar
os grandes rios que desembocam na capital,
num emaranhado de caminhos fluviais. “O rio é a
nossa rua. O pão chega por ele, eu levo os meninos
pra escola da vila por ele.” Depois do trabalho
duro de ribeirinho é a hora de provar o fruto do
trabalho diário. Claro, como base de qualquer refeição
é o próprio açaí que faz a diferença. O poderoso
ouro negro, batido ou amassado na hora,
pode vir acompanhado de peixe, carne, camarão
e arroz. Se for apenas uma merenda, com um
pouco de açúcar. O que nunca pode faltar para
acompanhá-lo é a farinha, de preferência de tapioca.
Só na capital são consumidas mais de 700 toneladas
de açaí por mês, e o estado é responsável
por 92% da produção nacional.
Há quem defina a capital paraense como exótica,
quem a chame de portal da Amazônia, há
quem lembre da chuva que cai quase diariamente
nos finais de tarde. O fato é que se trata da
principal cidade do estado mais desenvolvido de
todo o Norte e palco das mais importantes passagens
históricas que marcaram a região, desde
que foi fundada, em 1616, quando portugueses tiveram a intenção de proteger a foz do rio Amazonas.
Em face da grande multiplicidade indígena
da região, esse encontro só poderia ter gerado
uma herança rica e única.
Para conhecer um pouco dessa herança, é indispensável
uma visita ao mítico Mercado Ver-o-
Peso, um daqueles lugares onde se pode ver, a
um só tempo, a gastronomia, o artesanato, crenças
e o democrático cotidiano do caboclo local.
“Faz querer quem não me quer”, “Abre caminho
para a felicidade”, “Verdadeiro banho para olho
grande”. Assim se anunciam, sem deixar dúvidas,
as promessas dos vidrinhos coloridos, pendurados
nas barraquinhas aprumadas do mercado.
Mais à frente, próximo às lanchonetes, estão os
cestos e as cerâmicas artesanais. Do lado de
fora, as torres do mercado de peixe dividem o cenário
com os barcos que aportam quase que ininterruptamente
na doca do Ver-o-Peso. Em seu
vaivém, as embarcações transportam todo tipo de
produtos encontrados no maior mercado ao ar livre
da América Latina, também considerado o
melhor em iguarias.
Em funcionamento desde 1688, era a princípio
um posto onde os colonizadores verificavam o
peso de mercadorias para fazer a cobrança de impostos,
o que lhe teria batizado como “haver o
peso”. De lá também partiam os carregamentos
de borracha e chegavam imigrantes sírios, italianos
e libaneses em busca de uma vida melhor.
Hoje, reúne os mercados de peixe, de carne, e a
feira do açaí.
A musicista belenense Judie Kristie dá outro
bom motivo para ir até o mercado: depois de
uma noite de farra, com chorinho ou o brega nas
boates, “o bom é amanhecer no Ver-o-Peso, tomando
um caldo de mocotó”. Para o forasteiro,
chama a atenção a quantidade de frutas. Pêra e
maçã aqui não têm vez, as donas do lugar são
taperebá, cupuaçu, murici, pupunha, tucumã.
Mas impera, sem dúvida, o açaí, que merece
uma feira exclusiva, em que negociantes compram
a abundante produção vinda do interior e
de ilhas próximas.
Belém não seria a mesma, não fosse a responsabilidade
da força dos povos indígenas que habitam
e habitaram o estado. Um dos mais significativos,
talvez de todo o país, é o Marajoara. Em placas,
camisetas, vasos e muitos outros objetos expostos na cidade, encontram-se referências aos
grafismos deste povo. Mas os Marajoara, assim
como outras culturas pré-cabralinas do Pará,
como a Santarém e a Tapajônica, foram mais que
bons desenhistas. Habitantes do arquipélago de
Marajó, entre os anos 400 e 1350 d.C., deixaram
entre seus vestígios uma cerâmica ricamente desenhada,
tanto na forma como na decoração. Em
uma experimental expedição européia que desceu
o rio Amazonas em 1542, o cronista português
Frei Gaspar de Carvajal escreveu que “fazem
e formam imagens de barro em relevo, de
tipo romano; e assim vimos muitas vasilhas [...]
taças e outros vasos e tinas tão altas quanto um
homem [...] mui formosas e de excelente barro”.
Observando sua simbologia, pesquisadores defendem
a idéia de que se tratava de uma sociedade
muito bem organizada, com hierarquia, divisão
de trabalho e uma profunda relação com a
sobrenaturalidade, características que podem
colocá-los ao lado dos incas no que se refere a
desenvolvimento social.
Belém é o lugar ideal para ver as peças marajoaras.
Em vários museus, como o do Estado e o Forte
do Presépio, encontram-se expostas urnas funerárias,
pratos e vasos autênticos. Já em Icoaraci,
onde há um ateliê ao lado do outro, junto com
cerâmica comum é possível encontrar boas réplicas
produzidas por artesãos que se especializaram
em copiar peças arqueológicas. O mais famoso
deles foi Mestre Cardoso, falecido neste
ano, aos 76 anos de idade. O mestre começou a
se dedicar a este trabalho na adolescência e passou
toda a sua vida estudando desenhos e formas.
Hoje, sua esposa e filhos continuam a tarefa.
Deo Almeida é outro que se destaca. Utilizando-
se de fotos de peças originais, reproduz com
cuidado cada detalhe. Mas ele prefere dizer que
não faz réplicas, mas cópias. “Uma réplica, na
verdade, exigiria que todo o processo fosse feito
da mesma forma. E não se pode afirmar que a
queima, por exemplo, é idêntica”, explica.
Além do açaí, do Ver-o-Peso e dos Marajoara,
uma manifestação cultural de Belém que não
pode ficar de lado é o Círio de Nazaré, que acontece em outubro. É nada menos que a maior procissão
do país. No ano passado, o número de
fiéis beirou os 2 milhões. A tradição começou em
1700, quando um pescador chamado Plácido encontrou
a imagem da santa nas margens de um
igarapé e, em sua homenagem, uma capela foi
construída. Nos primórdios da procissão, a imagem
era levada por um carro de boi. Até o dia em
que o carro atolou e, para livrá-la do atoleiro, foi
preciso usar uma corda, puxada por muitos homens.
Os fiéis gostaram tanto da idéia que o carro
de boi foi aposentado e, em seu lugar, a corda
virou símbolo da procissão. São 400 metros de
corda, que os devotos se esforçam para tocar todos
os anos, à espera de serem agraciados pelo
gesto. A festa continua nas casas belenenses,
pois o Círio representa uma comemoração familiar
tão ou mais importante que o Natal. No lugar
do peru e do leitão, a mesa é ocupada pelas comidas
típicas do cardápio paraense. Sabores que
podem parecer até extravagantes, como o do
pato no tucupi, feito à base de mandioca e jambu,
uma erva que provoca dormência na boca. Há
também a maniçoba, um cozido de carne de porco
e folhas de mandioca-brava, que começam a
ser preparadas com uma semana de antecedência,
para tirar o “veneno”.
Mas, se até agora se falou na Belém secular, de
tradições tão arraigadas no gosto popular, vale
lembrar que nos últimos anos a capital passa por
um processo de revitalização turística. Se em outros
lugares a expressão lembra guias recitando
textos decorados e lojas de lembrancinhas, em
Belém esse processo procura valorizar a cultura
contemporânea, como na Estação das Docas. O
antigo armazém foi reformado e transformado
em um conjunto de bares e restaurantes. Longe
de se resumir a um bom lugar para tomar uma
cerveja gelada ao refresco da brisa que sopra do
rio Guamá, tornou-se uma espécie de centro cultural.
Na Estação das Docas acontecem freqüentemente
mostras de cinema, espetáculos teatrais,
apresentações musicais e de grupos parafolclóricos,
além de exposições de artes visuais.
O mesmo ocorre com a Feliz Lusitânia. A área é
um conjunto de construções históricas que foram
integradas para se tornar um único ponto de
atração. Lá estão o Forte do Castelo, que abriga
um bem cuidado museu de arqueologia e história,
a Casa das Onze Janelas, com exposição de
arte moderna e contemporânea, e a Igreja de
Santo Alexandre, erguida no século 18 e restaurada
para se tornar o Museu de Arte Sacra. Outra
parada indispensável é o complexo São José Liberto.
A construção de 1749 era inicialmente um
convento franciscano, depois transformado em
depósito de pólvora, quartel, olaria, hospital e presídio,
que esteve em atividade até o ano 2000. Hoje,
abriga o Museu de Gemas, a Oficina de Jóias e a
Casa do Artesão, com exposições permanentes
da produção atual de artesanato e ourivesaria,
com destaque para a confecção de jóias com desenhos
inspirados no próprio Pará.
O ápice de todo este processo é, indubitavelmente,
o imponente Theatro da Paz. Construído
durante o auge do ciclo da borracha, no século
19, o primeiro teatro de ópera da região Norte
passou por uma completa restauração em 2001 e
se mantém em intensa atividade. A programação
inclui espetáculos de dança, teatro e festivais de
ópera que se realizam regularmente. Judie Kristie,
que há alguns anos se mudou para São Paulo
para estudar piano, lembra com saudades do
festival de música de câmara. “Uma das melhores
coisas do Theatro da Paz é que ele é acessível
a qualquer pessoa. No festival, além de gente do
mundo todo, vão os moradores de Belém de todas
as camadas sociais, que fazem até torcida
para os grupos locais.” Talvez este seja mais um
diferencial de Belém: uma cidade onde o que é
popular agrada ao gosto erudito, enquanto o erudito,
por sua vez, não deixa de ser popular.
Tão cativante, que soa atual o poema “Belém
do Pará”, escrito por Manuel Bandeira em 1928,
que termina dizendo: “Nunca mais me esquecerei/
Das velas encarnadas/ Verdes Azuis/ Da
doca de Ver-o-Pêso/ Nunca mais/ E foi pra me
consolar mais tarde/ Que inventei esta cantiga:/
Bembelelém/ Viva Belém!/ Nortista gostosa/ Eu
te quero bem”. |