São Paulo, 24 de Maio de 2013
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Edição nº 06 » A exótica Belém
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VIAGENS

BEM ANTES DO NASCER DO SOL, os barcos já estão percorrendo os igarapés e furos, passando de casa em casa em busca de sua carga. Aos poucos, ficam lotados de cestos abarrotados de frutos do açaizeiro. Depois chegam a portos de pequenos municípios e são descarregados. Mas a viagem ainda não acabou. Serão ainda mais algumas horas em outros barcos antes que o produto chegue a outro porto, a outra feira. Dessa vez, o número de embarcações ancoradas e descarregando é muito, muito maior, assim como o movimento de trabalhadores e compradores. A singular feira do açaí divide espaço com as incontáveis barraquinhas que vendem ervas milagrosas do outro lado do cais, com o artesanato, o mercado de ferro, da carne, o mercado de peixe e um semfim de outros produtos. Nascido no alto de uma palmeira, em uma mata preservada à beira de algum rio amazônico, o miúdo e escuro açaí agora está numa cidade grande e populosa, enfrentando o susto do movimento frenético do Mercado Ver-o-Peso, principal entreposto da fruta. Ele chegou a Belém. E aí é preciso abrir um parêntese: o açaí é uma das mais importantes referências da cultura paraense. Esqueça aquela mistura de polpa congelada e xarope de guaraná que se vende nas lanchonetes de academias de outras capitais. Famoso no resto do país por seu alto teor de vitaminas e minerais, açaí, por aqui, é uma potente história na várzea do estuário amazônico.

São séculos de tradição no extrativismo e no consumo desse fruto, que é colhido no alto de uma elegante palmeira, nativa da mata amazônica. Tarefa que muitas vezes cabe às crianças. Ágeis e leves, elas se enroscam no tronco do açaizeiro em busca dos cachos, sem que isso signifique trabalho infantil. Pode-se dizer que é a manutenção de um modo de vida familiar, em que crianças e adultos estão integrados numa mesma atividade. Quem explica é Mario Jardim, coordenador do núcleo de Botânica do Museu Emílio Goeldi. “Temos no açaí um diferencial, pois mesmo a presença das crianças na coleta não pode ser tida como trabalho infantil, tão combatido no Brasil, mas sim uma atividade que eu costumo chamar de contributiva. É ação prazerosa de preservação de cultura. É bem diferente, por exemplo, das carvoeiras, em que as crianças trabalham em troca de comida e dinheiro”. Segundo ele, a presença das crianças acaba por se tornar um elemento de união familiar, parte do legado indígena. Mulheres e adultos também interagem com a “panha” dos frutos, debulha dos bagos e seleção. O baldeador de açaí Manuel Lobato da Fonseca Trindade, conhecido como BG, conta que ainda de madrugada passa de casa em casa para buscar a produção dos sítios e levá-la até o porto de Abaeté, em Abaetetuba. De lá o açaí segue por poucas horas até chegar a Belém. Tudo deve ser feito “rapidola” – como ele explica –, já que o produto é perecível e deve chegar ao seu destino em até 24 horas. O transporte por definição é o barco, que segue por furos e igarapés até alcançar os grandes rios que desembocam na capital, num emaranhado de caminhos fluviais. “O rio é a nossa rua. O pão chega por ele, eu levo os meninos pra escola da vila por ele.” Depois do trabalho duro de ribeirinho é a hora de provar o fruto do trabalho diário. Claro, como base de qualquer refeição é o próprio açaí que faz a diferença. O poderoso ouro negro, batido ou amassado na hora, pode vir acompanhado de peixe, carne, camarão e arroz. Se for apenas uma merenda, com um pouco de açúcar. O que nunca pode faltar para acompanhá-lo é a farinha, de preferência de tapioca. Só na capital são consumidas mais de 700 toneladas de açaí por mês, e o estado é responsável por 92% da produção nacional.

Há quem defina a capital paraense como exótica, quem a chame de portal da Amazônia, há quem lembre da chuva que cai quase diariamente nos finais de tarde. O fato é que se trata da principal cidade do estado mais desenvolvido de todo o Norte e palco das mais importantes passagens históricas que marcaram a região, desde que foi fundada, em 1616, quando portugueses tiveram a intenção de proteger a foz do rio Amazonas. Em face da grande multiplicidade indígena da região, esse encontro só poderia ter gerado uma herança rica e única.

Para conhecer um pouco dessa herança, é indispensável uma visita ao mítico Mercado Ver-o- Peso, um daqueles lugares onde se pode ver, a um só tempo, a gastronomia, o artesanato, crenças e o democrático cotidiano do caboclo local. “Faz querer quem não me quer”, “Abre caminho para a felicidade”, “Verdadeiro banho para olho grande”. Assim se anunciam, sem deixar dúvidas, as promessas dos vidrinhos coloridos, pendurados nas barraquinhas aprumadas do mercado. Mais à frente, próximo às lanchonetes, estão os cestos e as cerâmicas artesanais. Do lado de fora, as torres do mercado de peixe dividem o cenário com os barcos que aportam quase que ininterruptamente na doca do Ver-o-Peso. Em seu vaivém, as embarcações transportam todo tipo de produtos encontrados no maior mercado ao ar livre da América Latina, também considerado o melhor em iguarias.

Em funcionamento desde 1688, era a princípio um posto onde os colonizadores verificavam o peso de mercadorias para fazer a cobrança de impostos, o que lhe teria batizado como “haver o peso”. De lá também partiam os carregamentos de borracha e chegavam imigrantes sírios, italianos e libaneses em busca de uma vida melhor. Hoje, reúne os mercados de peixe, de carne, e a feira do açaí. A musicista belenense Judie Kristie dá outro bom motivo para ir até o mercado: depois de uma noite de farra, com chorinho ou o brega nas boates, “o bom é amanhecer no Ver-o-Peso, tomando um caldo de mocotó”. Para o forasteiro, chama a atenção a quantidade de frutas. Pêra e maçã aqui não têm vez, as donas do lugar são taperebá, cupuaçu, murici, pupunha, tucumã. Mas impera, sem dúvida, o açaí, que merece uma feira exclusiva, em que negociantes compram a abundante produção vinda do interior e de ilhas próximas.

Belém não seria a mesma, não fosse a responsabilidade da força dos povos indígenas que habitam e habitaram o estado. Um dos mais significativos, talvez de todo o país, é o Marajoara. Em placas, camisetas, vasos e muitos outros objetos expostos na cidade, encontram-se referências aos grafismos deste povo. Mas os Marajoara, assim como outras culturas pré-cabralinas do Pará, como a Santarém e a Tapajônica, foram mais que bons desenhistas. Habitantes do arquipélago de Marajó, entre os anos 400 e 1350 d.C., deixaram entre seus vestígios uma cerâmica ricamente desenhada, tanto na forma como na decoração. Em uma experimental expedição européia que desceu o rio Amazonas em 1542, o cronista português Frei Gaspar de Carvajal escreveu que “fazem e formam imagens de barro em relevo, de tipo romano; e assim vimos muitas vasilhas [...] taças e outros vasos e tinas tão altas quanto um homem [...] mui formosas e de excelente barro”. Observando sua simbologia, pesquisadores defendem a idéia de que se tratava de uma sociedade muito bem organizada, com hierarquia, divisão de trabalho e uma profunda relação com a sobrenaturalidade, características que podem colocá-los ao lado dos incas no que se refere a desenvolvimento social.

Belém é o lugar ideal para ver as peças marajoaras. Em vários museus, como o do Estado e o Forte do Presépio, encontram-se expostas urnas funerárias, pratos e vasos autênticos. Já em Icoaraci, onde há um ateliê ao lado do outro, junto com cerâmica comum é possível encontrar boas réplicas produzidas por artesãos que se especializaram em copiar peças arqueológicas. O mais famoso deles foi Mestre Cardoso, falecido neste ano, aos 76 anos de idade. O mestre começou a se dedicar a este trabalho na adolescência e passou toda a sua vida estudando desenhos e formas. Hoje, sua esposa e filhos continuam a tarefa.

Deo Almeida é outro que se destaca. Utilizando- se de fotos de peças originais, reproduz com cuidado cada detalhe. Mas ele prefere dizer que não faz réplicas, mas cópias. “Uma réplica, na verdade, exigiria que todo o processo fosse feito da mesma forma. E não se pode afirmar que a queima, por exemplo, é idêntica”, explica. Além do açaí, do Ver-o-Peso e dos Marajoara, uma manifestação cultural de Belém que não pode ficar de lado é o Círio de Nazaré, que acontece em outubro. É nada menos que a maior procissão do país. No ano passado, o número de fiéis beirou os 2 milhões. A tradição começou em 1700, quando um pescador chamado Plácido encontrou a imagem da santa nas margens de um igarapé e, em sua homenagem, uma capela foi construída. Nos primórdios da procissão, a imagem era levada por um carro de boi. Até o dia em que o carro atolou e, para livrá-la do atoleiro, foi preciso usar uma corda, puxada por muitos homens. Os fiéis gostaram tanto da idéia que o carro de boi foi aposentado e, em seu lugar, a corda virou símbolo da procissão. São 400 metros de corda, que os devotos se esforçam para tocar todos os anos, à espera de serem agraciados pelo gesto. A festa continua nas casas belenenses, pois o Círio representa uma comemoração familiar tão ou mais importante que o Natal. No lugar do peru e do leitão, a mesa é ocupada pelas comidas típicas do cardápio paraense. Sabores que podem parecer até extravagantes, como o do pato no tucupi, feito à base de mandioca e jambu, uma erva que provoca dormência na boca. Há também a maniçoba, um cozido de carne de porco e folhas de mandioca-brava, que começam a ser preparadas com uma semana de antecedência, para tirar o “veneno”.

Mas, se até agora se falou na Belém secular, de tradições tão arraigadas no gosto popular, vale lembrar que nos últimos anos a capital passa por um processo de revitalização turística. Se em outros lugares a expressão lembra guias recitando textos decorados e lojas de lembrancinhas, em Belém esse processo procura valorizar a cultura contemporânea, como na Estação das Docas. O antigo armazém foi reformado e transformado em um conjunto de bares e restaurantes. Longe de se resumir a um bom lugar para tomar uma cerveja gelada ao refresco da brisa que sopra do rio Guamá, tornou-se uma espécie de centro cultural. Na Estação das Docas acontecem freqüentemente mostras de cinema, espetáculos teatrais, apresentações musicais e de grupos parafolclóricos, além de exposições de artes visuais. O mesmo ocorre com a Feliz Lusitânia. A área é um conjunto de construções históricas que foram integradas para se tornar um único ponto de atração. Lá estão o Forte do Castelo, que abriga um bem cuidado museu de arqueologia e história, a Casa das Onze Janelas, com exposição de arte moderna e contemporânea, e a Igreja de Santo Alexandre, erguida no século 18 e restaurada para se tornar o Museu de Arte Sacra. Outra parada indispensável é o complexo São José Liberto. A construção de 1749 era inicialmente um convento franciscano, depois transformado em depósito de pólvora, quartel, olaria, hospital e presídio, que esteve em atividade até o ano 2000. Hoje, abriga o Museu de Gemas, a Oficina de Jóias e a Casa do Artesão, com exposições permanentes da produção atual de artesanato e ourivesaria, com destaque para a confecção de jóias com desenhos inspirados no próprio Pará.

O ápice de todo este processo é, indubitavelmente, o imponente Theatro da Paz. Construído durante o auge do ciclo da borracha, no século 19, o primeiro teatro de ópera da região Norte passou por uma completa restauração em 2001 e se mantém em intensa atividade. A programação inclui espetáculos de dança, teatro e festivais de ópera que se realizam regularmente. Judie Kristie, que há alguns anos se mudou para São Paulo para estudar piano, lembra com saudades do festival de música de câmara. “Uma das melhores coisas do Theatro da Paz é que ele é acessível a qualquer pessoa. No festival, além de gente do mundo todo, vão os moradores de Belém de todas as camadas sociais, que fazem até torcida para os grupos locais.” Talvez este seja mais um diferencial de Belém: uma cidade onde o que é popular agrada ao gosto erudito, enquanto o erudito, por sua vez, não deixa de ser popular.

Tão cativante, que soa atual o poema “Belém do Pará”, escrito por Manuel Bandeira em 1928, que termina dizendo: “Nunca mais me esquecerei/ Das velas encarnadas/ Verdes Azuis/ Da doca de Ver-o-Pêso/ Nunca mais/ E foi pra me consolar mais tarde/ Que inventei esta cantiga:/ Bembelelém/ Viva Belém!/ Nortista gostosa/ Eu te quero bem”.