São Paulo, 21 de Maio de 2013
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Edição nº 06 » Lira Paulistana
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RAIZ DA QUESTÃO

POPULARES PARA EXPORTAÇÃO.

ATRAÇÃO FONOGRÁFICA INVESTE EM MÚSICA PARA PÚBLICO DIFERENCIADO.

ENTREVISTA A MARIANA BERGEL

Entre 1979 e 1985, uma nova geração de músicos decidiu gritar a independência sob as bênçãos do movimento Lira Paulistana, que, além de batizar um teatro, se transformou também em gravadora. Mesmo com poucos recursos, produziu discos inovadores do Língua de Trapo, Premê, Rumo, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e Tarancón. Em uma época em que as multinacionais ditavam o que era moda na música, o mercado foi pego de surpresa com o sucesso do selo Lira Paulistana. Por trás de todo esse agito estava Wilson Souto Jr., 54 anos. Ex-diretor artístico da Continental e da gravadora Warner no Brasil, gerou polêmica ao difundir a lambada e o axé em todo o território nacional e por ter sido o grande responsável pela explosão da música sertaneja. Mas também ganhou admiradores ao criar, há nove anos, o selo independente Atração, gravadora com grandes nomes da música brasileira de raiz. Em entrevista exclusiva, Souto Jr. fala sobre as dificuldades de vender artistas regionais aos brasileiros e do ineditismo de ter colocado a gravadora na loja virtual de música iTunes, uma das mais procuradas pelos internautas estrangeiros.

Como surgiu a Atração?
Quando comecei, a música regional brasileira sofria muito preconceito. A arte popular é carregada de preconceitos, mesmo fora da música. Após sair da Continental, eu e a Ana (Ana Maria T. Mendez), produtora de shows, montamos um escritório de promoção baseado em nossos conhecimentos sobre as diferenças da música regional. Em 1996, estava com saudade de mexer com música. Daí surgiu a Atração, criada nos moldes da Continental. Ao mesmo tempo que tinha Tom Zé, da vanguarda cultural, tinha Amado Batista. Como a Atração sobrevive em tempos de pirataria? As multinacionais – que hoje não possuem os incentivos fiscais de antes – estão saindo da música brasileira e nós estamos crescendo em cima desse abandono. A pirataria também é um dos grandes motivos da saída das multinacionais. Amado Batista disse que 65% de seus CDs e DVDs vendidos são piratas. Eu acho que é mais. De fato, esse efeito da perda de mercado para a pirataria está sendo, no nosso caso, um pouco neutralizado pelo recuo da multinacional.

Não existe nenhuma lei de incentivo que a Atração faça uso?
A gente poderia até participar da Lei Rouanet, mas ela ainda é um mecanismo bastante complicado. As grandes verbas são muito tuteladas. Por exemplo, o Itaú Cultural. Praticamente 100% do que seria aplicado pela lei é investido no próprio instituto, impondo, com isso, uma visão artística deles. O artista não vive de mecenato, precisa se validar perante algum público. Eu fiz os primeiros discos do Olodum. A primeira vez que vi o grupo pensei que era estranho. Dois anos depois estava tocando com o Paul Simon no Central Park. E virou uma marca mundial. Não foi a minha maravilhosa genialidade que o criou. Nossa função é a de veiculação de cultura.

E como está o mercado de exportação de vocês?
Fomos a primeira gravadora brasileira a permitir a venda de músicas via download. O iTunes não vende no Brasil por causa da regulamentação com cartão de crédito. Curiosamente, o que mais se procura é moda de violas, forró pé-de-serra, cantadores. Também é interessante ver o que as pessoas baixam de reggae nacional. Mas, mercadologicamente, o Brasil ainda está muito cru nessa área. Por aqui a gente passa por problemas com demora de autorização e há muito desentendimento nesse sentido. Eu acho que dentro de cinco anos essa história vai ficar mais clara, com a internet mais formal e os artistas menos vulneráveis quando o assunto é pirataria.