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ALGUMAS DENOMINAÇÕES precisam de muita
cautela para serem usadas, na medida em que,
sem esse cuidado, podem ser empregadas para encobrir
a realidade em lugar de desvelá-la, além de
poderem se transformar em instrumento de hierarquização
e discriminação entre pessoas, objetos,
atos. É esse o caso dos termos arte popular e arte
erudita. Um leigo, ou mesmo a visão capitalista, podem
dissociar os trabalhos intelectual e manual,
vinculados respectivamente à elite e ao povo. Daí
fica subentendido que a produção popular pertence
ao campo do irracional ou simplesmente do executar
sem se preocupar com qualquer elaboração.
É inegável que essa é uma classificação um tanto
quanto discriminatória, pois confina as criações
populares num gueto, resultando em reserva
de mercado para a produção de origem erudita,
dirigida geralmente à camada social dominante.
Para discutir a oposição entre o erudito e o popular
nas artes plásticas, vale a pena lembrar que, em
seu conceito "Teoria tradicional e teoria crítica", os
pensadores Theodor Adorno e Max Horkheimer defendem,
em 1947, que a arte não deveria ser massificada,
pois era feita e destinada à elite. Portanto,
a dupla de pensadores da Escola de Frankfurt defendia
que, se o povo não tem acesso à arte, não
pode criá-la nem julgá-la. Para eles, Van Gogh não
deveria virar figurinha. Já para o pensador Walter
Benjamim, da mesma escola, "rompendo o envoltório
da arte, põe os homens, qualquer homem, o homem
de massa, em posição de usá-las e gozá-las".
Vê-se que o caso está calcado em como a arte deve
ou não ser introduzida na sociedade.
Se nem nesse momento se chegou a uma resposta
de por que a arte popular não deve ser negada
e sim inserida, quem ousa dizer que, independentemente
da raiz, ela é sim a cultura de um
povo – explorada cada uma à sua maneira: simples
ou rebuscada, e sempre espontânea. Como
as obras do cearense Hélio Melo, que estarão expostas
na 27° Bienal Internacional de Artes de
São Paulo, em outubro, marcando a volta da arte
popular ao salão nobre.
Os preços das pinturas do artista acreano aumentaram
significativamente desde sua suposta
“descoberta”. Responsável pela seleção dos trabalhos
de Melo, o curador do bloco Acre José Roca
acredita que a valorização econômica de suas
obras é inevitável. “É possível que esse interesse se
estenda a outros artistas acreanos como, por
exemplo, Ivan Campos”, arrisca o curador.
Por que, em geral, a arte popular não é tão valorizada
quanto a erudita? Enumerar motivos,
elencar razões e hipóteses que respondam sem
maiores problemas a diferença, sem ser a clássica
"um tem estudo, o outro não", é a atual discussão.
Mal se entra no assunto, no entanto,
percebe-se sua complexidade. De saída, nos vemos
às voltas com a nomeação dos termos dessa
equação. Arte popular, primitiva, ingênua (ou
naïf) e artesanato.
Para o leigo, muitas vezes essas palavras são vistas
como sinônimos. Para quem busca aprofundarse
no tema, no entanto, fica evidente que são coisas
distintas. Muito embora nem sempre se chegue a
um acordo sobre o uso de cada um dos termos.
Para o marchand Roberto Rugiero, especializado
em arte popular e dono da galeria Brasiliana
em São Paulo, o que é chamado de arte ingênua
é, na verdade, um engodo. “Ela é feita por artistas
que fazem uma espécie de imitação da verdadeira
arte popular e que não têm interesse artístico”.
A antropóloga Ângela Macelani, diretora do Museu
do Pontal no Rio de Janeiro – voltado para a
produção popular –, defende que o termo naïf geralmente
refere-se a pinturas, enquanto o popular
está mais ligado à produção de objetos tridimensionais.
Seja como for, seria, no mínimo, politicamente
incorreto, hoje, designar a produção popular
de ingênua. Afinal, o fato de esses artistas normalmente
não terem uma educação formal não
faz necessariamente com que eles tenham uma
visão ingênua do mundo.
Em relação ao termo primitivo, é plausível afirmar
que já traz consigo a idéia de que a história
da arte pode ser representada como uma caminhada
rumo ao progresso. A posição mais evoluída
é ocupada pela arte de hoje, contemporânea,
e os artistas primitivos estariam no começo
dessa linha, em uma posição menos evoluída.
Nada mais contestado pelas atuais teorias da
arte do que essa idéia de evolução. Por se tratar de um produto cultural, ao nos referirmos às artes
popular e erudita, “não é possível afirmar que
uma seja melhor do que a outra”, de acordo com
o crítico de arte Olívio Tavares Araújo.
O termo artesanato, e nisso os especialistas parecem
concordar, não é sinônimo de arte popular.
Normalmente, ele é associado a objetos utilitários,
confeccionados um a um, manualmente,
por uma pessoa que domina aquele processo.
Ângela pormenoriza a diferença dizendo que o artista
popular surge no campo do trabalho artesanal,
mas não se confunde com ele.
Na opinião da antropóloga, “o bom mesmo seria
se a arte popular fosse chamada apenas de
arte, pois o recorte popular é um recorte socioeconô-
mico” e, portanto, não diz respeito a critérios
artísticos. Quando se fala em “popular” – e
não apenas na esfera da cultura –, usualmente se
associa o termo às camadas pobres e sem formação
cultural. Há quem defenda, como Rugiero,
que a arte popular é a arte dos pobres. Mas como
explicar que artistas de origem pobre desenvolvam
trabalhos no campo da dita arte erudita?
Exemplos como esses não faltam, como Alfredo
Volpi, que foi pintor de parede. Para mencionar
um caso internacional, temos o norte-americano
Robert Ryman que, sem formação em artes visuais,
começou a pintar quando trabalhava como vigia
do Museu de Arte Moderna de Nova York.
Como os critérios de formação e origem social
do artista não parecem suficientes, o marchand
Giuseppe Baccaro, que vive em Olinda, um dos
grandes pólos de arte popular, acredita que essa
arte é rural e interiorana. Sua base conceitual são
as lendas e as tradições regionais e utiliza materiais
disponíveis no local como barro, madeira,
entre outros. Em oposição, para o marchand, a
arte erudita teria mais a ver com o contexto urbano.
A afirmação é, no mínimo, questionável.
O FATO É QUE A ARTE POPULAR já desempenhou
um papel mais central no circuito artístico.
Nos primórdios do modernismo, era comum o interesse
de artistas por uma arte que não carregasse
os vícios da academia. Não raro os artistas
colecionavam máscaras de tribos africanas, viajavam
em busca de novidades e incorporavam
em seus trabalhos essas influências. Os museus
passaram a ter salas destinadas a esses artistas
e grandes mostras de arte popular eram freqüentes.
Na 6ª Bienal Internacional de São Paulo, realizada
em 1961, com a curadoria de Mário Pedrosa,
a arte popular romena convivia com a obra
contemporânea do artista cinético brasileiro
Abraham Palatnik. O que aconteceu desde então?
Hoje, o valor de mercado da arte popular é
muito mais baixo que o da contemporânea, e é
fato que ela desapareceu das Bienais de São Paulo
desde meados da década de 1980 e não consta
no currículo dos principais cursos universitários
de artes visuais do Brasil.
Para Rugiero, a saída de cena da arte popular
está relacionada a uma postura esnobe. “As pessoas
acham que alguém que não tem estudo não
está preparado para virar um artista.” Segundo
ele, as portas fechadas da mídia e o fato de os críticos
não entenderem de arte popular também
têm sua parcela de contribuição. “Os críticos que
defendiam uma idéia de identidade nacional dentro
da cultura desapareceram”, afirma.
De fato, o interesse pela arte popular sempre
esteve ligado à busca pelo exótico e por características
regionais, que em tempos de globalização
cultural parece não mais fazer sentido. “Hoje,
no mundo da comunicação imediata, a arte erudita
se tornou homogênea. É a mesma coisa em
todo lugar. Até 1800, cada país tinha sua própria
arte, ligada à sua história e suas raízes”, defende
Baccaro. Mas a arte popular também sofre com a
globalização. “Com a imigração para as cidades,
pode-se dizer até que ela está acabando. Mas ainda
é possível, na origem, encontrar artistas autênticos”,
afirma o marchand.
O fato de a arte popular não ser comercializada
a preços elevados, do ponto de vista mercadológico,
não é visto negativamente por Rugiero.
Ele acredita que sua valorização está relacionada
à forte representação histórica e social. “É
justamente isso que está forçando a entrada
dela no mercado”, avalia. E comemora a notícia
de que uma obra da artista Mirian Inês da Silva,
conhecida no meio artístico apenas como Mirian,
foi vendida num leilão por 15 mil reais. Um
recorde, segundo o marchand.
NÃO SÃO APENAS MUITOS CRÍTICOS e especialistas
que defendem que a manifestação popular nas
artes plásticas merece menos respeito do que a erudita.
Para o artista popular Antonio Poteiro, que vive
em Goiânia, “a valorização da arte varia conforme o
currículo e a idade do artista: quanto mais velho,
mais valorizado. Mas se você está falando que a outra
arte é mais valorizada, eu acho que está certo,
pois a pintura moderna tem que ter escola, educação,
nós fazemos uma pintura mais livre”.
A única certeza nesse debate é que fica cada vez
mais patente a dificuldade das categorizações.
As fronteiras entre o erudito e o popular estão
cada vez mais tênues. Muitos artistas contemporâneos
utilizam elementos da arte popular em
sua linguagem. Que o diga o paraense Marcone
Moreira, vencedor da Bolsa Pampulha (voltada a
artistas contemporâneos emergentes pelo Museu
de Arte da Pampulha). “Eu não fiz uma graduação
em arte, mas fiz cursos livres. Não me coloco
como autodidata, acho isso muito difícil hoje. Algumas
vezes fui situado como um cara meio isolado,
fora do eixo tradicional de arte contemporânea,
mas é preciso desmistificar”, posiciona-se. Moreira
conta que sempre teve acesso à informação e
que em Marabá (cidade em que vive) também há
poluição, trânsito e os mesmos problemas e impasses
sociais que o resto do Brasil enfrenta. “Eu
acho que só vendo o trabalho do artista é que podemos
falar se ele dialoga com a contemporaneidade.
Conheço artistas populares que, como eu,
têm uma linguagem contemporânea”, pondera.
Para José Roca, a introdução de um artista
como Hélio Melo na Bienal não quer dizer, obrigatoriamente,
que a arte popular esteja em voga.
“Uma andorinha só não faz verão”, diz. Para ele,
encarar a presença das obras do artista como indicativo
de uma nova tendência nacional ou de
uma abertura na Bienal parece excessivo. Seria
apenas um esboço de abertura na concepção de
um evento desse porte de ir além dos centros habituais
de produção artística. Não apenas do resto
do mundo, mas também do Brasil.
A escolha do Acre, um estado que não tem tradição
na arte contemporânea, como um dos eixos
da 27ª Bienal de São Paulo coloca em pauta
a discussão sobre as fronteiras que separam a
produção popular da contemporânea na arte. O
artista em voga é Hélio Melo (1926-2001), nascido
num seringal acreano e retratista da natureza
amazônica em suas obras. Doutora em filosofia
pela USP, Lisette Lagnado é a curadora da
mostra, que contará com obras de Melo, um dos
destaques da exposição. Com a escolha das
obras do artista acreano, a curadora traz à tona
desconforto de alguns e satisfação de outros. “O
Hélio Melo me interessa como artista de qualidade,
eu não fiz uma concessão para contemplar
a arte popular”, afirma. Em entrevista à
RAIZ., Lagnado justifica a participação do artista
na Bienal e fala sobre o estado do Acre.
Como o bloco Acre foi pensado dentro da 27ª
Bienal?
O olhar de Hélio Melo sobre a construção da cidade
e sobre a relação da cidade com a natureza
não é uma coisa popular ingênua. Por ser autodidata,
ele tem uma característica chamada “popular”,
entendendo o artista popular como aquele
que não se deixou contaminar pela História da
Arte. Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), que já
participou da Bienal de Veneza, talvez seja assim
também, mas com a agravante de que estava
dentro de uma instituição psiquiátrica.
O Acre tem uma geografia – não só a geografia
que diz respeito aos rios e às florestas, mas uma
geografia humana – muito característica. As tribos
que vivem às margens do rio têm, cada uma delas,
uma língua diferente, há uma riqueza humana
que, junto com a potência das florestas, das lendas,
do Santo Daime, me atrai muito em termos
culturais. E, obviamente, tem a questão histórica.
É um estado que tem em sua história a anexação
de um território boliviano e de um pedaço do Peru,
o que tem a ver com a questão da modernidade. São esses elementos que explicam a escolha
do Acre para a Bienal? A escolha demandou uma grande discussão entre
os co-curadores e sou extremamente grata ao
José Roca, como colombiano, por ele ter entendido.
Eu queria fugir do clichê brasileiro, mas também
queria evitar essa moda de fazer residências
em lugares exóticos e longínquos. No Acre, você
tem uma questão de fronteiras que tem a ver com
uma das idéias centrais dessa Bienal: a da construtividade.
Quando Hélio Oiticica se refere ao artista
construtor, ele está falando daquele artista
que vai construir o Brasil. O Acre faz sentido dentro
desse programa ambiental do Oiticica: um
Brasil contra a cultura de exportação.
O Acre funciona como uma espécie de metáfora
de uma modernização que não deu certo? Não. Eu acho que é uma modernização possível,
mais humana, não essa modernização capitalista
selvagem. Se você for para lá, vai encontrar casas
de leitura que são lindas, como a Casa de Chico
Mendes que foi transformada em casa de leitura
depois que ele morreu. São espaços em que você
pode tirar o sapato para ler, que você tem à disposição
livros de Clarice Lispector, Guimarães Rosa
e talvez [Julio] Cortázar e Gabriel García Márquez.
Há monitores que narram histórias, conservando
a tradição oral. Tem programas voltados para famílias,
um estímulo muito grande para a leitura.
Eu não encontrei uma cena artística contemporânea
viva no Acre. Então, tive vontade de levar artistas
para lá para fazerem um workshop e deixarem
uma semente.
Talvez fazer com que os artistas acreanos que têm
uma timidez com relação à arte contemporânea,
que só fazem arte artesanal, possam misturar as
duas coisas, como Hélio Melo fez. Ele trabalhou
com as sementes e as substâncias da floresta
para pintar, os pigmentos dele são da floresta. Ele
é um autodidata, mas isso não significa que ele
não tenha uma visão ácida do desenvolvimento
das cidades, da maneira como a mata está sendo
devastada. Você percebe isso nas imagens nessa
fusão com os mitos, os animais.
Tendo a obra de Hélio Melo em vista, parece difícil
falar em uma separação entre arte contemporânea
e arte popular, não? O Hélio Melo é contemporâneo no sentido de ser
crítico. Eu chamo de contemporâneo, normalmente,
quem está produzindo hoje. A Bienal tem
um compromisso com a contemporaneidade,
não tem mais nada de histórica. Mas, na minha
opinião, por vários motivos, isso não significa
que artistas mortos tenham que ser banidos. Primeiro
porque eles influenciam a produção dos
artistas contemporâneos, então, eu os chamo de
artistas históricos contemporâneos. Segundo,
porque eu acho que a gente convive com os mortos.
O Leonilson (1957-1993), para mim, está
aqui, eu falo com ele, com Hélio Oiticica, Mira
Schendel (1919-1988), Arthur Bispo do Rosário.
Agora, há artistas que estão produzindo hoje coisas
de terceira geração do movimento expressionista
abstrato americano. É contemporâneo, no
entanto, é uma digestão de um movimento de 50
anos atrás. O que é contemporâneo no Acre é
uma reflexão absolutamente nova sobre um estado
que ainda não tem uma representação de si
mesmo, que ainda não tem história suficiente
para ter criado uma imagem de si mesmo. É uma
tentativa de dar dignidade a eles: o gaúcho tem a
sua dignidade, o carioca também.
Como serão apresentados os trabalhos de Hélio
Melo na Bienal? É muito cedo para falar da montagem, nada está
certo ainda. Como o Hélio Oiticica não trabalhava
com categorias estéticas, também não vou trabalhar
com elas na montagem. Mas eu entendo que
é preciso montar um percurso “didático” para
que as pessoas possam caminhar e ir compreendendo
desde o sentido de construtivo até essa
dissolução, esse adeus ao esteticismo que ele
propôs. Eu acho que o Acre pode não ser um território
dentro da Bienal, acho que ele conversará
com todos os trabalhos que tem a ver com fronteiras.
Então, por exemplo, temos um palestino
discutindo isso, um israelense, um chileno.
Numa Bienal sem representações nacionais a
graça é essa. Ver que a reivindicação de fronteiras
não é só da Palestina, foi uma reivindicação
entre a Bolívia e o Brasil (claro que com as especificidades
históricas). Até brinquei outro dia falando
para uma artista que, quem sabe, o Acre
não é uma espécie de Palestina feliz, que tem a
terra conquistada através do trabalho.
Como você vê a súbita valorização da obra de
Hélio Melo pelo mercado depois que foi anunciado
que ele participaria da Bienal? Olha, é inevitável e eu diria até que é saudável.
Pois um artista como Hélio Melo não pode ficar
refém de alguns poucos connaisseurs, como foi
até agora. Fazendo a pesquisa para localizar seus
trabalhos descobrimos que um dos maiores colecionadores
de Hélio Melo era [o artista plástico]
Sérgio Camargo (1930-1990). Como imaginar que
alguém com o trabalho de Sérgio Camargo colecionasse
Hélio Melo? As pessoas têm Hélio Melo
como em outros tempos tinham as monotipias de
Mira Schendel, que ela dava de presente. Para
mim, o melhor da Mira são as monotipias. Mas
era um mercado disperso, desinformado.
É óbvio que eu não quero ser vampirizada pelo mercado,
então, às vezes, respondo um pouco abruptamente
quando as pessoas querem a lista dos artistas.
Eu não dou por dois motivos. O primeiro é que
ainda não está fechada, e o segundo é que essa inflação
dos trabalhos é uma coisa que atrapalha.
Esse troca-troca de artistas que passam de uma
galeria para outra, esse troca-troca de obras, isso
tudo dificulta.
Estávamos fazendo uma lista de rastreamento das
obras de Hélio Melo que queríamos para a exposição
e, de repente, um lote de 20 desenhos dele passou
de uma mão para outra. Alguém comprou 20
desenhos do artista. Quanto custa um Hélio Melo?
Antes custava R$ 200 e hoje custa R$ 2 mil?
Ninguém tinha noção de que aquilo tinha valor.
Eu acho a valorização saudável para a família,
para o patrimônio público, e acho uma pena para
o artista que não está mais aqui.
É possível relacionar a obra de Hélio Oiticica
com a de Hélio Melo? Eu acho que Hélio Melo entra na Bienal como um
artista que Hélio Oiticica certamente teria olho. O
carnaval, para Oiticica, era uma manifestação popular
de alto valor. O que eu posso dizer é que para
ambos existe o “Como viver junto”, que é o título
da Bienal. Nunca tive o propósito de colocar na
Bienal um artista que é considerado popular e,
nesse sentido, contemplar a arte popular. Mas
quando percebi isso, vi que tinha feito um outro
“Como viver junto”, o “popular” convivendo com
uma arte mais “instruída”. Para mim, essas coisas
vivem juntas, pois meus artistas prediletos como
Marepe (1970) e a Rivane [Neuenschwander] (1967)
se inspiram em feiras populares, é lá que eles vão
beber. O Hélio Melo me interessa como artista de
qualidade, eu não fiz uma concessão para contemplar
a arte popular. Eu simplesmente o escolhi
porque ele traz as questões das fronteiras, da
crítica à destruição da floresta, porque ele é o
maior artista do Acre que eu encontrei. Eu não tenho
preconceito com arte popular, como não teria
com arte formalista, se coubesse e fosse o caso.
O Hélio Melo é tão importante nessa Bienal como
o [artista norte-americano] Gordon Matta-Clark
(1943-1978) e o [artista belga] Marcel Broodthaers
(1924-1976), se eu conseguir trazê-los.
GUIDOBALDO QUER INCREMENTAR seu aposento
especialmente reservado a aventuras eróticas.
Contrata um artista e lhe encomenda um quadro
ao qual se refere apenas como “de uma mulher pelada”
(ele não escreveu “nua”, pois não era o caso
de ser tão formal nesse contexto). O quadro chega,
é instalado e cumpre com sucesso sua função. Os
amigos o invejam e pedem indicações do artista.
São feitas outras encomendas àquele gênio capaz
de criar essas figuras quase vivas. Quando a cópia
encomendada por Farnese chega, ele diz a Guidobaldo:
“Perto do meu, o teu parece a figura de uma
madre frígida”. Até aí, são apenas amigos ricos farristas
que trocam sugestões sobre como tornar
mais quentes suas noites na cama. Não é diferente
de comentários atuais sobre DVDs eróticos ou canais
pay-per-view. Mas estamos em 1542 e a “madre
frígida” é o quadro hoje conhecido como Vênus de
Urbino, de Ticiano (1490-1576).
Dê um salto de 450 anos e teremos a grosseira série
em que o artista norte-americano Jeff Koons
posa com a atriz pornô Ilona Staller, então sua esposa.
É certo que não precisaremos de mais 450
anos para que a série seja considerada as Vênus de
Koons. A diferença é que Ticiano sabia que não fazia
arte em nenhum sentido que hoje emprestamos
à palavra. Já Koons é artista, e erudito, e exposto
em grandes museus e centros culturais em todo o
planeta. Ticiano adoraria poder trabalhar assim tão
às claras, vender bem e, acima de tudo, ter suas
“mulheres peladas” consideradas arte.
Esse é um exemplo no qual o papel do tempo é
evidente: o que era antes aceito com reserva se
torna elegante; o que era visto como escandaloso
se torna exemplo de sobriedade. Nesses casos
—que não se restringem às artes, pois em
ciência e tecnologia também acontece algo parecido,
com teorias vistas como estapafúrdias
numa época ganhando respeitabilidade em outra
posterior, e vice-versa – o fluxo é do considerado
popular, ou mesmo obsceno, ao erudito.
Listar apenas uma parte desses casos, em somente
um campo artístico, levando em conta só o
fator tempo, encheria livros com relatos iconoclastas.
Interessa ver se outros fatores criam esses canais
entre o erudito e o popular, entre o considerado
educado e digno de reflexão e o considerado
apenas divertido, ainda que bem elaborado.
Não existe artista desligado de uma cultura e a
própria noção de erudição envolve mais método
que conteúdo. Existe, antes de tudo, um método erudito,
que consiste em um olhar crítico, na coleta
de material, na interpretação deste e, eventualmente,
em sua transformação em matéria-prima para
um trabalho de fôlego. Bartók colecionou canções
populares húngaras e dali veio seu Microcosmos.
Villa-Lobos tinha os olhos voltados para a música
popular do Brasil. Isso torna seu trabalho, de alguma
forma, menos erudito que o de um Stockhausen
ou um Ligeti, que trabalham no limite da sonoridade,
sem nenhuma referência aparente com
aquilo que as pessoas leigas consideram música?
Certamente não. E Ligeti teria se tornado de algum
modo popular quando muitas de suas peças foram
usadas como trilha sonora de 2001, de Stanley Kubrick?
Também não é o caso.
Novamente, essa distinção não é privilégio das artes.
Praticamente qualquer campo de conhecimento,
da aeronáutica à escultura figurativa, separa seus
produtores por métodos. O método erudito consiste
em uma série de procedimentos formais, todos
guiados por alguma reflexão teórica, cujo resultado
vemos exposto, seja num museu, seja numa mostra
de tecnologia. O popular, por outro lado, denota uma
certa ausência de método formal, um tatear e, encontrada
a solução desejada, o repetir dessa solução,
repetição essa que faria avançar somente a técnica
de execução. O método erudito se aprende com mestres consagrados e, hoje, nas universidades,
que praticamente monopolizam a disseminação de
conhecimento considerado de alto nível. Já o método
(melhor talvez seria dizer tática) popular é aprendido
no contato com profissionais, geralmente
como aprendiz, como auxiliar em um meio em que
o que conta é essencialmente a produção.
Mas mesmo a questão do método não constitui
boa separação. Primeiro, porque o aprendizado em
um clima popular pode render, a uma pessoa especialmente
talentosa, ferramentas mais que suficientes
para a produção de uma arte considerada
erudita. Segundo porque, na universidade, a preocupação
formal pode levar facilmente a uma troca
da estética pela palavra, do trabalho pelo falar sobre
o trabalho. De fato, mas essa é outra história e
bem mais complicada, a localização de departamentos
de artes em universidades, cujos padrões
para avaliação de ensino e pesquisa não são bem
adaptados para a produção artística, leva mais à
produção de discurso (que se materializa em relatórios,
papers apresentados em congressos etc.) e
menos de objetos (materiais ou não) portadores de
um conteúdo estético.
O século 20, especialmente no que diz respeito às
artes visuais, complica ainda mais o quadro, quando
considera (com toda a razão) Marcel Duchamp
um de seus maiores expoentes. O que é arte, afinal
de contas? Se não é bem método, nem bem conteúdo,
nem história, nem técnica, talvez ela se defina
apenas por “arte é o que o artista diz que é arte”.
Duchamp cria o readymade, um objeto sem importância,
nem feio nem bonito, nem útil nem inútil,
enfim, algo absolutamente mediano, e lhe dá nome
e assinatura: um mictório vira Fonte, uma escumadeira,
um Braço, e esses são objetos de arte. Revolucionário,
mas com tradição, quando nos lembramos
que Leonardo havia definido arte como cosa
mentale. É certo que ele ficaria horrorizado com
Duchamp, mas este apenas levou ao desfecho lógico
a expressão do artista italiano.
O tempo mistura o erudito e o popular, também
o método, também a origem da matéria-prima
(como nos casos vistos de Bartók e Villa-Lobos e,
nas artes visuais, para citar mais um caso, o altar
para Roberto Carlos, de Nélson Leirner), também
a própria lógica dos artista, como em Duchamp.
Então, talvez o suporte fosse um modo seguro de
separação entre campos. Claro que ninguém
acredita nisso, pois existe Francis Bacon e existem
os incontáveis quadros de cavalos e de meninos
chorando, expostos em toda feira de artesanato.
Em ambos os casos, trata-se de óleo sobre
tela. E se tentarmos as novas mídias? Estamos em uma época especialmente interessante
no que diz respeito não só à produção artística,
mas com respeito ao papel do receptor em um
ambiente de comunicação. A internet e, mais geralmente,
as aplicações multimídia, permitem ao receptor
um certo grau de autoria. Aquela reflexão
que parecia exótica em Umberto Eco, de que não há
linha clara entre autor e leitor, parece se confirmar
nos meios digitais. Não que esse tal apagamento de
limites seja pacífico: de qualquer forma, para que o
receptor aja como autor, ainda é preciso que um autor
“de verdade” ofereça algo de antemão. Mas esse
é outro ponto. A produção de objetos de arte que
usam mídias digitais cresceu enormemente e ocupa
espaço em exposições, em cursos universitários,
em congressos etc. Os artistas e curadores que tratam
com essas manifestações estão sempre dispostos
a dizer que a própria ciência já se volta para
os achados desses artistas, mas isso não é verdade.
O problema que essas manifestações enfrentam, e
que remetem à questão do erudito/popular, é a que
chamaríamos “transparência das mídias”. Uma tela
recoberta de tinta ou um pedaço de mármore esculpido
são tão óbvios para nós como veículo de arte
que desconsideramos o suporte. Olhamos para um
certo conteúdo e nos esquecemos da mídia. O uso
a tornou transparente. Nas mídias digitais, a fascinação
tecnológica ainda é mais forte que o conteúdo
e o resultado é que nesse campo recente a confusão
entre popular e erudito é ainda mais grave.
Videogames
podem aspirar a arte? Sim, no que diz
respeito ao conteúdo e à linguagem, e ainda não, no
que diz respeito à transparência da mídia.
Volta-se sempre a Leonardo. Arte é coisa mental
e, para apreciá-la (e avaliá-la), é preciso examinar
o discurso que cerca qualquer trabalho. A
arte está nas intenções, e para isso não existe
saída material.
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