Imagens da fotógrafa Andréa D'Amato retrata mestres da cultura popular e cenas de festas tradicionais de todo o país.
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A fotógrafa Andréa D’Amato realiza exposição individual de fotografias "Será o Benedito?". São 25 imagens em cores: retratos de mestres da cultura popular e cenas de festas tradicionais de todo o país. O objetivo da artista é apresentar as individualidades que constituem o coletivo de tais festejos. Há mais de oito anos, Andréa documenta festejos de santos por todo o Brasil. A curadoria é de Diógenes Moura.
A fotógrafa já participou da revista RAIZ. numa matéria sobre a Guardiã do Divino, Marlene Silva, caixeira que junto a outras mulheres celebra o Divino Espírito Santo.
Em entrevista ao portal RAIZ. Andréa nos conta sobre sua convivência com Araquém Alcântara, seus novos projetos e fala sobre suas descobertas fotográficas pelo país. “Acho que o Brasil precisa aprender a olhar para o Brasil, acho que precisamos saber do nosso povo, saber da nossa cultura, é a única maneira de compreender essa nação”, afirma.
Entrevista a Fábio Rayel
Há mais de 10 anos você viaja pelo país fotografando. Gostaria que você me contasse sobre as coisas mais fascinantes que você encontrou no povo brasileiro...
Andréa D’Amato: O que mais me surpreende no Brasil é o nosso povo. Vejo e acredito no poder de criação e recriação da sabedoria popular, na capacidade de sonho e ação desses artistas anônimos. Vejo um povo, que cansado da miséria, se veste de rei nas festas dedicadas aos seus santos de devoção. Não percebo um povo ingênuo, muito menos acomodado. Pelo contrário, vejo um povo sofrido, mas que sabe manter a sua dignidade. Como disse Darcy Ribeiro "O povo brasileiro possui uma inverossímil alegria e uma espantosa vontade de felicidade". São muitas as histórias, sempre de gente simples, que não tem muito, mas gosta de dividir tudo o que tem. E o que mais vale é esse contato. A Dona Malá - caixeira do Divino em Alcântara no Maranhão, o Mestre Zanza - catopê de Montes Claros no norte de Minas, o Capitão Zé Ferreira da congada na cidade de Olímpia no interior de São Paulo. São todos guardiões da verdadeira cultura popular.
Por que o título da exposição é “Será o Benedito?”?
Andréa D’Amato: É quase uma provocação, uma sutil ironia, uma pergunta mesmo, como se os próprios personagens estivem dizendo será que nunca vão perceber o nosso valor? Será que não se tocam que nós também somos o tão comentado povo brasileiro? Acho que o Brasil precisa aprender a olhar para o Brasil, acho que precisamos saber do nosso povo, saber da nossa cultura, é a única maneira de compreender essa nação.
Quando você descobriu a vocação para fotografar sobre essa temática?
Andréa D’Amato: Há oito anos fotografo festas populares, foi o fotógrafo Walter Firmo que me apresentou esse universo. Porém desde pequena sou eu a responsável pela confecção das bandeirinhas que decoram a festa de São João na casa da minha vó, acho que tudo isso já fazia parte de mim. Não tem nenhuma técnica especial não, as cores estão presentes nas roupas, nos doces, nas bandeiras, nos enfeites. Entretanto, não acho nada fácil fotografar festas populares. São muitas informações, muitos os apelos, existe até uma certa poluição visual. Aí entra a habilidade do fotógrafo de observar, observar e observar, entrar em cena e saber escolher o momento certo, a luz , o personagem.
Você também trabalhou com Araquém Alcântara. Você pode me dizer sobre alguns dos aprendizados que teve com ele?
Andréa D’Amato: Aprendi olhar com mais poesia e que não existe fotografia sem comprometimento. Logo que conheci o Araquém, ele disse uma frase que carrego comigo até hoje: "Não basta ser poeta, tem que ser guerreiro também". Foi com ele que tive a percepção da "LUZ" dentro da fotografia. Ele me mostrou que sempre é possível. Com o Araquém entendi que a fotografia é muito mais que uma linguagem, é um caminho espiritual.
Qual foi a sua última viagem? E quais são os lugares ainda pretende explorar?
Andréa D’Amato: Viajar sempre envolve mistério e busca, e o ato de fotografar sempre é uma evolução. Não sei dizer o lugar que "mais" gostei, eu sempre gosto. Cada lugar tem sua particularidade, sua geografia, sempre são histórias e vivências diferentes, o que conta são as experiências, as pessoas que encontro pelo caminho. Acabei de chegar de uma viagem ao "Céu de Mapiá", uma comunidade no Amazonas onde todos os moradores são adeptos do Santo Daime - uma religião que nasceu no Brasil - foi uma experiência fantástica. No ano passado passei 35 dias no Pantanal em contato com a cultura bastante peculiar do homem pantaneiro. São muitos os lugares que ainda não fotografei, por isso, não quero parar nunca. Gostaria de conhecer o Benin, na África, acho que muito do que somos veio de lá, e no contra-fluxo, muito do que eles também são hoje, partiu daqui.
Novos projetos...
Andréa D’Amato: Esses oito anos de andanças conhecendo as festas e os festeiros foram apenas um apenas um grande reconhecimento, acho que o mergulho vem agora. Durante esse período compreendi melhor o sentido dos festejos, criei uma certa intimidade com alguns mestres. Agora pretendo acompanhar os personagens no cotidiano, fora das festas, saber quem é o José Ferreira quando está sem a sua farda, conhecer a Marlene Silva quando está sem a caixa, entender como - as vezes em um segundo - eles se transformam em reis.
SERVIÇO:
Exposição Será o Benedito?
4 de fevereiro a 29 de abril de 2007
Terça a domingo, das 10h às 18h
PINACOTECA DO ESTADO
Organização Social de Cultura
Praça da Luz, 2 – Fone (11) 3229-9844
São Paulo - SP