Em entrevista, o diretor Hugo Possolo fala sobre as riquezas da arte circense e os preconceitos e obstáculos que assombram o circo nacional.
O circo apareceu na vida de Hugo Possolo quando ele era criança e seu pai, apaixonado por mágica e teatro, o levava junto aos espetáculos. Desde lá, o garoto queria ser artista. Aos 16 anos entrou no grupo Teatro Infantil de Monteiro Lobato, onde descobriu a vocação para ser palhaço. E, entre a arte e os cursos de jornalismo e história, corajoso, escolheu a primeira opção: ser palhaço. Hoje, junto ao grupo circense Parlapatões, Hugo esta conseguindo realizar seu grande sonho: a construção de uma grande escola de circo e um teatro. “Não com uma visão de empresa e sim de cooperação”, afirma. Em 2004, ele foi o primeiro
Coordenador Nacional de Circo mobilizando forças para lutar pela arte. Com esse espírito de militante engajado nas questões do circo, Hugo falou com o Portal RAIZ., e conta como anda o circo brasileiro, o embate com o ministro da cultura Gilberto Gil, a luta contra o Ibama que quer proibir os animais, e diz que “se o Circo tivesse o mesmo apoio do cinema nacional, os circenses superariam o público da sétima arte de lavada”.
Entrevista concedida ao jornalista Fábio Rayel
Portal RAIZ.: Por que o circo não atingiu a mesma independência do teatro e do cinema nacional?
Hugo Possolo: O que acontece com o circo, é que o tradicional, de lona, quase confunde a sua essência por ser itinerante, o que acaba tornando-o sem vínculo com a urbe. O circo faz uma relação com inúmeras cidades, mas nenhum com um grande aprofundamento. Por exemplo, ele chega numa cidade e pode depender de um favor do prefeito gerando uma manipulação de políticas regionais dentro dele. Ele não tem força ou relações sociais como tem os grupos de teatro e dança que se estabelecem numa cidade a longo tempo e conquistam a sua independência. Toda a relação do circo implica em outros negócios obscuros. Um grupo de teatro constrói suas bases sociais de relações com a mídia, com a academia, sociedade, o público, a crítica e cria vínculos. Seja a favor ou contra. Já o circo acaba ficando a margem da sociedade. Além dele se marginalizar por atitude, não há um processo contínuo de construção de base e ele perde o prestígio da sociedade. O que eu, artistas, pensadores tentamos fazer, é resgatar a dignidade. O circo é uma arte de grande penetração popular, que atende muito mais a população que, por exemplo, o cinema nacional. Você sabe que teve uma queda de produção para dois, três filmes por ano na época do presidente Fernando Collor. Depois teve uma curva ascendente que já caiu. E hoje temos uma média de trinta, quarenta filmes por anos, que é uma boa estatística internacional em longa-metragem. Agora, quantas pessoas são atingidas, de fato, por esse cinema nacional?! Veja o prestígio que esse cinema nacional tem! O cinema nacional tem uma enorme penetração na mídia, um grande investimento público e privado e o circo, mesmo sem ter tido apoio algum da mídia, governo, empresas e com muito menos cadeiras disponíveis, você vai ver que ele agrega muito mais pessoas para as arquibancadas do que o cinema. E ganha de lavada!
Portal RAIZ.: A tradição do circo no Brasil é muito popular. Quais as diferenças dos circos brasileiros para os internacionais?
Hugo Possolo: Não há diferença. O circo é uma arte eminentemente de característica popular, de abrangência universal que pega o público por um aspecto básico: a demonstração de habilidade, o desafio à lei da natureza, o equilíbrio do corpo, girar pendurado no ar, jogar objetos para cima, portanto, há uma a maneira como cada um se identifica naquele ser humano que esta tentando superar alguma coisa, em geral, a lei da gravidade. E, um grande contraponto a tudo isso, a figura do palhaço. Ao contrário, ele sede a lei da natureza. O palhaço é desequilibrado, quando salta se esborracha no chão e quando anda tropeça. O conflito dessa figura com todos os outros artistas que tentam superar a natureza transforma o espetáculo em uma grande atração que também tem uma imagem muito forte carregada de dramaturgia, de elementos plásticos, gestuais, teatrais, corporais e uma forte influência musical.
Portal RAIZ.: Antigamente a tradição do circo era familiar. Com a popularização das oficinas, que caminho tomou esse circo?
Hugo Possolo: Um pouco antes da queda do muro de Berlim começou uma migração muito forte de artistas de alto potencial do circo de Moscou para a Europa. Nessa época formaram-se inúmeras escolas de circo com um grau técnico de grande qualidade. O ensino deixou de ser passado de pai pra filho, difundindo-se por outras pessoas que não eram oriundas do circo. Essas pessoas passaram o utilizar essa linguagem com outras leituras diferenciadas da tradicional. Claro que mesmo algumas pessoas de tradição circense também mudaram sua linguagem, porque o circo esta sempre se reinventando e descobrindo maneiras de se expressar. O ponto determinante é essa mudança no ensino. O próprio circo de Moscou já quebrou esse modelo na Revolução de 1917, quando todas as artes eram ensinadas, inclusive o balé russo, que se consolidou nessa época. O mesmo aconteceu com o circo. Ele também se consolidou, começou a pegar jovens que não eram de família para aprender a arte, rompendo com a tradição familiar. Claro que o circo russo ficou dentro do padrão estético tradicional, mas, quando esses professores começam a dar aulas nas escolas pela Europa ocorre um boom muito forte na propagação da arte. A França, por exemplo, foi o país que mais se aplicou políticas públicas de maneira mais contundente para o circo. Ela percebeu que precisava ter uma imagem no mundo relacionado às artes. Ela já tinha uma imagem de país culto, seu cinema característico, mas não de arte com acesso popular. Além das escolas, eles bancaram grupos circenses que viajaram pela Europa propagando a imagem francesa. Eles não conseguiam concorrer economicamente com o cinema americano e para poder ultrapassar culturalmente, eles apostaram no circo.
Portal RAIZ.: No Brasil existem políticas públicas para a formação de oficinas circenses. E o que é feito para os artistas que se formaram e agora terão de enfrentar o mercado?
Hugo Possolo: No atual governo, o presidente da Funarte Antonio Grassi teve a sensibilidade de perceber que quem respondia na estrutura governamental do circo é a Escola Nacional do Circo. Ele percebeu que precisava ter uma coordenação nacional que respondesse por políticas públicas, e nesse movimento eu acabei sendo o primeiro coordenador, ficando um período curto, mas muito significativo. Lá deixei implantado um plano nacional de políticas públicas que vem sendo seguido. E isso reverberou. Vários estados começaram a sugerir políticas para o circo. E nesse momento houve uma grande mobilização da categoria entre artistas profissionais, professores, pesquisadores, grupos e escolas, com o seguinte propósito de “precisamos ter políticas específicas para o circo”. Ele sempre ficou dentro do guarda-chuva do teatro, mas na verdade circo, teatro, dança e ópera deveriam estar no guarda-chuva das artes cênicas. Esse ano de 2006 nós estamos vivendo um momento muito dúbio para o circo. Você tem um ponto de efervescência com a vinda de muitas companhias estrangeiras de importância internacional, como o Cirque du Soleil, o Circo da China, o super tradicional Circo Zanni, mostrando que são grandes negócios além da altíssima qualidade. E agora se apresentaram em lona, porque antes acabavam se apresentando em teatro, pois não havia o espaço tradicional. Portanto, prospectamos um novo momento para o circo. E por outro lado, todos nós sabemos que o circo no Brasil sempre foi carente de verba pública, apoio, infra-estrutura, facilitadores burocráticos etc.
Portal RAIZ.: Você chegou a ficar um ano na Coordenação Nacional do Circo...
Hugo Possolo: Uma das minhas frustrações ao sair foi abandonar a primeira proposta que tive. Discordei do ministro da cultura Gilberto Gil que não teve a sensibilidade de perceber a importância da minha proposta, e obviamente ele era o ministro, tinha uma outra idéia e eu tive que acatar. Eu queria fazer um levantamento de todas as atividades circenses do Brasil. Como ela nunca teve política pública, a gente não tinha uma noção de quem era quem e o que precisava ser feito. Precisávamos de um mapeamento não só de quantidade, e sim de uma análise crítica da realidade desses circos. O ministro barrou. Ele tinha uma idéia de fazer um grande mapeamento da cultura através de um senso de mercado. Mas, não percebeu que os pequenos e médios circos não se inseriram neste senso, porque não estão no mercado da cultura. Os grandes estariam. Mas e o pequeno circo tradicional de lona rasgada conhecido como “pau fincado”?! Eles que podem ser um patrimônio cultural valiosíssimo estão sendo achatados pela cultura de massa, pela forte presença do advento da televisão, da indústria do cinema que vão aniquilando a visão e a sensibilidade para uma arte mais primordial que é o circo.
Portal RAIZ.: O como está situação do “pau fincado”?
Hugo Possolo: Eu dimensiono o circo tradicional em três patamares: pequeno, médio e grande. O grande é um circo empresarial, um negócio de empreendedor que contrata pessoas e tenta viabilizar aquilo com um negócio do entretenimento. Embora ele seja grande, esse circo também esta carente de apoio. Ele tem uma série de funcionários que recebem muito mal, o lucro do empreendedor é baixo, ele esta sempre reinvestindo sem contar com apoio público, portanto, sendo um herói nacional de um patrimônio cultural. Os médios e pequenos, em maior quantidade pelo país, esses sim são estruturas absolutamente familiares. Uma ou duas famílias que fazem o espetáculo como um todo, às vezes contrata algum outro artista, e faz todos os números. Esses estão totalmente depauperados e abandonados. E com entraves burocráticos enormes. Ele chega em qualquer cidade, e tem que preencher um monte de papelada, um calhamaço de papéis que saem caros e exigem um esforço enorme dôo circenses. E na verdade ele precisava ser incentivado a levar esse bem cultural de valor simbólico que a população tanto gosta e cada vez tem menos acesso porque o circo vem sendo estrangulado pela burocracia.
Portal RAIZ.: E vocês resolveram a briga com o Ibama que quer proibir os animais do circo?
Hugo Possolo: Há uma pressão grande de proteção animal que ainda não compreendeu que é preciso legalizar o animal do circo antes de proibir. E, se simplesmente proibir eles estarão matando o animal do circo. Se você proibir hoje, esses animais adestrados em cativeiro vão morrer. Quem maltrata deve ser pego, mas não quem cuida deles. Não existe legislação para isso e acaba sobrando para o Ibama. É preciso regular essa situação e parar com esta posição autoritária de banimento dos animais porque a profissão domador de animais esta na constituição. É uma profissão reconhecida pela lei federal.
Portal RAIZ.: Circo Roda Brasil traz o mote “veio pra mudar”. Mudar o quê?
Hugo Possolo: Com toda a experiência do grupo Parlapatões: visão de militância, engajamento político, consciência da importância da discussão estética na vida das pessoas e como isso pode ter uma capacidade transformadora, nós enxergamos que as gerações saídas de escolas de circo estavam sendo absolutamente tímidas, a ponto de não encarar as aventuras sobre a lona. E não adianta encarar seguindo modelos antigos. É preciso quebrá-los para que surjam outros, para a criatividade vir à tona. Resolvemos inovar e mostrar que existem outras possibilidades. Por exemplo, criamos uma estrutura para tirar o mastro interno do circo, que é uma inovação, porque proporciona uma visibilidade incrível, e em lugar nenhum do mundo existe isso! O mastro nos incomodava. Preocupamos proporcionar ao circo a mesma visibilidade que há no teatro e na dança. O Circo Roda Brasil busca uma junção de linguagens como o teatro de bonecos, o teatro e a dança de rua, a capoeira e a música brasileira. A estética do figurino é totalmente criativa de reaproveitamento e multiplicação. Nós pegamos uma arquibancada usada de um circo, reformamos e encapamos os bancos inspirados nas capas dos motoristas de ônibus. Estes são exemplos de quebra de modelos. Pedimos para o André Abujamra uma trilha sonora especial que unisse toda contemporaneidade mundial com a nossa música de raiz.
SERVIÇO
Circo Roda Brasil
25 de Janeiro a 11 de Fevereiro
Internacional Shopping Guarulhos
Rod. Presidente Dutra, km230
Quintas e Sextas às 20h
Sábado - 16h30, 19h e 21h
Domingo - 16h30 e 19h
Ingressos: R$20,00 inteira e R$10,00 meia entrada
Site: www.circorodabrasil.com.br