Réplica e Rebeldia: o fotógrafo Fabio Domingues conta um pouco sobre o mercado de arte e sua participação em exposições.
Por Thereza Dantas
Réplica e Rebeldia vai buscar o seu título ao processo que tipificou durante décadas a criação artística africana. “Estamos felizmente num processo de reconhecimento da identidade do outro, não do apagamento ou aniquilação das identidades”, avalia o curador António Pinto Ribeiro.
De fato o processo de criação da pintura do século XVII no Brasil e no século XX em países africanos começou por ser por parte dos artistas negros um processo de cópia, de réplica dos modelos europeus exportados para o Brasil e para África.
A este primeiro processo seguiu-se um outro caracterizado por uma revolta, uma rebeldia artística acompanhada por rebeldia social, política, muitas vezes particularmente violenta por parte dos artistas que começavam o seu processo de libertação e de identificação. Ora o que é de destacar no contexto em que esta exposição acontece é o fato de que a contemporaneidade africana e afro-brasileira não surge do nada. Ela acontece dentro de um processo histórico em que emerge um passado de tradições diversas e um passado desta primeira fase de Réplica e Rebeldia constituído por obras iniciadoras das artes visuais destas regiões culturais - Angola, Brasil, Cabo Verde e Moçambique. Para o curador António Pinto Ribeiro a exposição é uma forma de “possível entendimento entre “diferentes”, é uma estratégia de legitimação conclusiva”.
A seguir uma entrevista com o fotógrafo Fabio Domingues que tem três obras expostas.
Fale um pouco sobre a experiência de encontrar com artistas africanos. O que os une?
Expor com artistas africanos demonstra que temos alguns traços comuns, mas que param por aí, vivemos mundos diferentes, histórias diferentes, realidades diferentes, permeadas apenas pelas desgraças, e pela vontade de viver, o que obviamente influi de forma incisiva no processo de criação (o que sou e o que vivo resultam no que crio).
No meu caso pessoal, creio que temos o elo da etnia, do idioma e de sofrimentos. A América Latina e a África são os cantos mais esquecidos pela riqueza material do globo e, apesar disso, são também pontos muito ricos culturalmente, onde outras culturas, que são classificadas como dominantes, vêm "beber". O cubismo, por exemplo, tem uma forte influência da arte africana, o que foi admitido pelo próprio Picasso. O Brasil é o que se pode chamar de América Portuguesa, e vive quase que um isolamento cultural e artístico, dadas as nossas influências tão fortemente lusitanas e negras, algo sem precedente nas Américas; o que nos leva a concluir que nossos congêneres artísticos estariam do outro lado do oceano. Será?
Existe um mercado da arte fotográfica na África. Fale um pouquinho sobre o mercado do Brasil.
Existe um mercado de arte fotográfica na África? Se existe, isso já é um grande passo em relação a nós brasileiros, porque aqui, ao meu ver, isso não passa de especulação. Não sou a pessoa mais habilitada a questionar o mercado de fotografia africano, pois desconheço completamente a realidade deles.
No Brasil, posso falar de experiências pessoais, que não são das mais agradáveis.
O mercado de fotografia e de arte em geral é dominado por uma elite cultural, que eu chamaria de "branca", mas a questão vai além da cor da pele, a questão é social, a questão remete ao seu sobrenome, à sua origem, e passa bem distante do talento.
Artistas que se tornam "Barões das Artes" se esquecem que foram artistas, e assumem completamente as vestes de exploradores da arte alheia, pronto: sua mostra está em cartaz, e você fica devendo mil favores, e a próxima? Como vai ser bancada?
Isso é o que leva os artistas a uma vida no mínimo de privações (não falo de comprar carro zero quilômetro, e sim de pagar as contas e comprar comida), e à necessidade de terem uma carreira em paralelo para a sua subsistência.
A falta de conhecimento do mercado brasileiro também é outro tópico importante: Papel... arte em papel? Por que uma tela vale mais que uma fotografia com tiragem única?
E o mais importante: A falta de incentivo por parte de todas as esferas do governo, assim é quase impossível criar novas gerações de artistas independentemente de sua origem social.
As fotos são um lado mais realista ou onírico dos dois países?
Cada um sonha com a realidade que quer e que tem ao seu dispor.
De qualquer forma, não há como fotógrafos tanto africanos ou brasileiros sonharem sem uma boa dose dessa realidade dura que as histórias de seus países deixaram como legado.
É preciso extrair a poesia do caos.
Serviço:
Exposição Réplica e Rebeldia: artistas de Angola, Brasil, Cabo Verde e Moçambique
No Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, até dia 7 de janeiro
Av. Infante Dom Henrique 85 - Parque do Flamengo
Fone: 21- 2240 4944
Site: www.mamrio.org.br
No Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília, a partir de 19 de janeiro a 25 de fevereiro
SCES, Trecho 02, lote 22 - CEP 70200-002
Fone: 61 - 3310-7087
Site: www.bb.com.br/appbb/portal/bb/ctr/bsb/index.jsp