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O rei do bumba-meu-boi
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Por Revista RAIZ.
16 de fevereiro de 2007

O cantor Tião Carvalho fala sobre seu novo CD, cultura maranhense e as festas do bumba-meu boi

Raiz forte da cultura maranhense, Tião Carvalho aos 8 anos de idade saiu de Cururupu, Maranhão para morar com a tia em São Luís. Na capital teve os seus primeiros contatos com as manifestações populares da região, e se inspirou para montar sua primeira banda, a Rabo de Vaca. Tocavam samba, reggae, forró, baião, xote, e claro, o bumba-meu-boi. Entre outros projetos, Tião era músico de teatro, num festival nacional conheceu o grupo carioca Vento Forte, que o convidou para morar no Rio de Janeiro e fazer uma turnê pela Europa. O cantor diz que tem “sina viajadeira”, e não hesitou em aceitar o convite. Aos 24 anos foi morar na cidade maravilhosa, onde mais tarde conhecera o compositor João do Vale, já como músico, ator e dançarino. Em 1979, junto ao grupo de teatro veio morar em São Paulo. “Aqui é o meu ponto de partida para o resto do país”, diz Tião que já se considera um cidadão paulistano. Hoje, é diretor do grupo de dança Cupuaçu, trabalha com pesquisa de danças brasileiras e continua realizando no Morro do Querosene, Butantã, as festas do Bumba-meu-boi (nascimento, batizado e morte do boi), festejadas há 15 anos. Ele acaba de lançar o seu novo CD “Tião Canta João”, interpretações feitas a partir de composições de João de Vale. Dentre elas, Matuto Transviado (Coronel Antonio Bento), Carcará, Os Óio de Ana Bela e Peba na Pimenta.

CLIQUE AQUI PARA OUVIR O CD “TIÃO CANTA JOÃO”.


Entrevista a Fábio Rayel.


Por que você resolveu resgatar as músicas de João do Vale?
Eu o escutava desde criança e sempre cantei João do Vale nos meus shows. Aliás, eu me considero mais cantor do que compositor. Eu canto músicas brasileiras de todo mundo. O João faz parte do meu repertório, além de ter sido um grande amigo. E de tanto toca-lo, pensei em gravar um disco só com as músicas dele. Fiz um show como teste, só com músicas dele, e a Pôr do Som, minha gravadora abraçou a idéia. Junto aos meus amigos da Pôr do Som, fizemos um projeto que foi aprovado pela Petrobrás. Este é o meu segundo CD com a Pôr do Som. O primeiro foi Quando dorme Alcântara. Estamos fazendo shows por todo o Brasil.

Você também se apresenta sozinho...
Depende do lugar. Eu posso levar o bumba-meu-boi, posso tocar eu e um violão. Eu tenho um trio de forró que toca em lugares menores, chama Forró Chão. Mas, o que eu gosto mesmo é tocar com banda grande. Mas, é muito difícil mantê-la. Quando acontece uma oportunidade a gente aproveita. Isso é o ideal. Cantar, dançar, metais, bateria, guitarra, baixo, cavaquinho etc. Essa é minha paixão. Viajar, festivais. Eu também gosto de tocar em lugares menores, mas isso é complicado no mercado. Quando você é músico de barzinho, as pessoas automaticamente imaginam que o trabalho é aquilo. É mais simples e humilde, mas existe uma desvalorização. Acham que artista bom tem que estar na mídia.


E como é sua relação com a mídia?
Não é boa. A gente trabalha com música de raiz, popular, folclórica, outra hora chamamos de “folkpop”, e passamos a acreditar que são gêneros musicais que o Brasil precisa conhecer. Mas não passa no critério da mídia.


Por que o axé baiano ou brega paraense, que também têm raízes populares conseguiram romper a barreira do “desconhecido” e atingirão a grande mídia?
Com certeza caiu nos olhos de uma gravadora, alguém viu e investiu muito dinheiro. Alguém acreditou neles. Mas, não são de raiz. Houve uma total deturpação da raiz, nesses casos. Eu tinha um amigo que dizia pra filha dele: “Sexo, drogas e rock and roll, tudo bem! Só toma cuidado com uma coisa chamada Axé Music”. Investiram num ritmo bacana, mas banalizaram as letras. E nesses casos, eles perdem a poesia das músicas de raiz. Uma menina de 10, 12 anos dançando a boquinha da garrafa, na frente da televisão é um absurdo. Eles não têm noção do que estão fazendo e qual é a repercussão aqui nas periferias do país. Nos nossos filhos.

E quando começou as festas de bumba-meu-boi no Morro do Querosene?
Faz 15 anos consecutivamente que eu a faço. É uma maneira de amenizar a saudade que eu tenho do Maranhão. É uma festa religiosa que celebra o boi dançarino de São João, muito forte na minha terra natal. Felizmente, o povo de São Paulo aceitou bem este ritual religioso e hoje ele participa e faz promessas. Claro que é um choque cultural muito grande, mas ele acaba se encantando. A beleza das cores, a dança, a música, a indumentária etc. O boi é muito belo. Ele tem esse poder de romper barreiras e atingir corações. Esse lado místico. E isso é fascinante. Por outro lado, sofre um preconceito, porque folclore e cultura negra incomodam muita gente. A cultura de raiz não é justamente valorizada. Mas, hoje em dia a gente esta indo pra um caminho melhor, juntando todos os diferentes ritmos, misturando-os e fazendo o “world music”, a música universal. Claro que esse preconceito não esta resolvido, mas estamos num processo.

Você acha que ainda falta pouco investimento, público ou privado, para a música popular?
Eu não vejo diferença. Existe incentivo, mas são poucos. Agora temos a Petrobrás. A grande conquista é essa desmistificação que ainda não conseguimos. Eu vejo ações muito bruscas da parte dos órgãos governamentais. Por exemplo, se você pegar um edital da Funarte, eles colocam uma diferença muito grande entre um cachê de show de show de música popular para um de música erudita. Se um show de música erudita custa 18 mil reais, um de música popular custa mil reais. Isso vem de uma instituição que deveria justamente incentivar e valorizar a cultura nacional. Portanto, é um crime contra a própria cultura. Se eu sou músico e observo isso, por que você acha que meu filho vai querer ser músico popular? Claro que não. Ele vai estudar música erudita, ou vai fazer outra coisa. Portanto, essa tradição vai se perder.

site: www.tiaocantajoao.com.br