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Cantador de Chula
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Por Edgard Steffen
22 de outubro de 2009

Os Mestres do samba de roda do

Recôncavo e Agreste baiano

A Associação Sociocultural Umbigada percorreu vários municípios no Recôncavo e Agreste baiano em busca da antiga geração de sambadores, que cantam as chulas e cantigas preciosas do samba de roda, preservando a memória oral do povo negro como um tesouro ancestral que corre perigo de se perder para sempre. Os 16 cantadores de chula reunidos em dois cds de áudio e um documentário em dvd, representam a memória viva de sambadores e sambadeiras, imbuída de um espírito lúdico e muita sensibilidade musical e poética.

O Samba de Roda foi declarado como patrimônio imaterial brasileiro pelo IPHAN em 2004 e como patrimônio cultural e imaterial da humanidade pela UNESCO em 2005, reconhecendo assim o valor da arte de matriz africana que durante séculos tem sido perseguida, reprimida e menosprezada. O Cantador de Chula é mais uma pedra na reconstrução do lindo mosaico desenhado pela trajetória da cultura dos descendentes africanos no Brasil.

A Chula no Samba do Recôncavo

No samba de roda, existem muitas variações sobre as cantigas, que possuem nomes diferentes a depender do local. Na Ilha, em Salvador e municípios próximos, predomina o samba corrido, e as influências urbanas. O samba chula característico, também chamado samba de viola e samba amarrado, encontra-se na antiga região da cana que abrange Maracangalha, São Francisco do Conde, Terra Nova, Teodoro Sampaio, Saubara, Santiago de Iguape e principalmente Santo Amaro. Uma dupla de cantadores canta uma chula e outra dupla e o coro das mulheres responde com um relativo, sendo um verso mais curto que “arremata” a chula. A chula cantada tem um brilho todo especial que é respeitado como um recital poético, tanto que nenhuma mulher entra na roda para sambar, esperando os homens terminar de cantar e começar a parte instrumental recheada de solos de viola e de percussão. A sambadeira agora entra sambando com passos miudinhos, “peneirando” e percorrendo a roda toda, até dar umbigada em outra sambadeira, que espera, por sua vez, até a próxima chula cantada.

As chulas são miniaturas poéticas que tratam dos assuntos da vida, contando pequenas histórias, relatando conflitos e as complicações da paixão, retratando aspectos do cotidiano e dando conselhos, alertas e “sotaques” para quem precisa ouvir. Os grandes temas cantados são ligados ao universo amoroso - ressaltando a visão do homem sobre a mulher - como também ao próprio samba, os acontecimentos na roda, e o papel da viola, por estabelecer uma ligação forte entre os homens como músicos e as mulheres como dançarinas. Muitas chulas retratam a vida do trabalho, na roça, na cana, no mar e no mangue, às vezes com uma conotação do sofrimento, do “penar” que remete aos tempos da escravatura. Em contraste com o lado pesado da vida, estão as chulas lúdicas e eróticas, contando piadas e conselhos irônicos, pequenas parábolas, satirizando situações sensuais e tragicômicas da vida. Outro aspecto é a vida religiosa que se revela nas chulas que cantam os santos católicos, como também os orixás e caboclos, muitas vezes falando em metáforas.

Na outra margem do Rio Paraguaçu, nos municípios de Antonio Cardoso, Santo Estevão e Rafael Jambeiro, a chula é chamada de coco e o corrido chamado de chula. O samba nessa região se caracteriza por ser um samba de desafio, cheio de riquezas poéticas que retratam o universo regional com sutileza, humor e variedade literária. Entre os sambadores antigos, samba é coisa séria, assunto de homens brabos que se desafiam com palavras afiadas e bem ritmadas, levando noites inteiras nessas disputas que renderam muitas lendas em toda região.

Um projeto-processo

O projeto Cantador de Chula foi realizado durante 15 meses em várias etapas de trabalho e com equipes distintas e interdisciplinares, compostas de profissionais de diversas áreas (antropologia, etnomusicologia, vídeo-documentação, fotografia, profissionais e técnicos de áudio e vídeo, produção cultural, comunicação, entre outros) sob a coordenação da etnomusicóloga e professora de arte- educação Katharina Döring,

Durante aproximadamente dois meses, a equipe de pesquisa, coordenada pelo antropólogo Ari Lima, percorreu 16 localidades, na maioria pequenos povoados situados no Recôncavo e Agreste Baiano. A área abrangida pelo projeto foi repartida em quatro territórios, denominados por Zona da Cana, Zona do Mangue, Semi-Árido e Grande Salvador. Em cada uma destas quatro regiões a equipe contou com o suporte de sambadores aprendizes, pessoas da comunidade escolhidas pelo projeto para mediar a relação com os mestres de samba chula e dar apoio logístico nas fases de pré-produção, pesquisa e produção.

Esta expedição tinha a missão de registrar a memória e os relatos de vida de homens e mulheres, todos negros na faixa de 60 e 100 anos, com vidas marcadas pela privação e pobreza,  herdadas do sistema escravagista colonial. Muitos destes antigos cantadores e sambadores selecionados já eram conhecidos por Katharina Döring, coordenadora do projeto, que participou como pesquisadora no inventário e na elaboração do dossiê do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) que levou ao reconhecimento pela UNESCO do samba chula como patrimônio oral e imaterial da humanidade. Outros foram indicados pelo repentista e artista popular Bule-Bule, que prestou consultoria ao projeto devido ao seu vasto conhecimento sobre as tradições populares no Agreste baiano. Deste esforço de pesquisa resultaram relatos de histórias de vida emocionantes, extraídos das recordações sobre a labuta nas plantações de fumo, o vai-vem dos tropeiros no transporte de carga atravessando o sertão baiano,as rezas por ocasião das celebrações aos santos padroeiros e do samba que varava as noites. Aliás, é bastante significativa esta ligação entre o samba e o universo do trabalho, até mesmo porque alguns relatos dão conta de que a dinâmica do canto da chula se originou no trabalho nas leiras de cana de açúcar, quando os cortadores enfileirados ditavam um verso e os da outra fileira respondiam igualmente com versos.

Imagem e som no percurso da chula

A gravação do documentário, que teve Nicolas Hallet a frente da fotografia sob a direção do documentarista Marcelo Rabelo, consumiu quase cinqüenta horas de registro, realizado predominantemente em ambientes abertos para aproveitar a luminosidade natural. Quando as gravações ocorreram em lugares fechados, o problema com a luminosidade foi contornado com a abertura de portas e janelas e o  uso de rebatedores de luz. As locações escolhidas tinham sempre a ver com a história de vida dos mestres, deviam dar oportunidade para  o  flagrante de situações cotidianas como o trabalho na roça, a feitura do artesanato, o grão socado no pilão, a pesca e tantos outros momentos significativos.

Para criar um ambiente agradável nas gravações, sempre que possível  eram convidados  moradores locais  e pessoas próximas aos Mestres, que acabavam motivando uma conversa descontraída e reveladora. O documentarista  Marcelo Rabelo ficou impressionado com a diversidade cultural encontrada nos lugares que visitou e ao mesmo tempo preocupado com o risco de sua extinção. A diversidade cultural encontrada nas regiões percorridas é realmente grandiosa e, ao mesmo tempo em que entramos em contato com este rico patrimônio imaterial, nos deparamos com uma cultura popular onde seus mestres estão praticamente esquecidos e pouco valorizados, em sua maioria com estado de saúde não muito bom, nos trazendo uma sensação de que tudo aquilo corre sério risco de ficar perpetuado apenas na memória e em registros como este” , adverte.

O diretor de gravação de áudio Tadeu Mascarenhas e sua equipe, munidos com uma unidade móvel de gravação, enfrentaram as condições acústicas mais adversas para capturarem o canto dos mestres de samba chula. As gravações ocorreram nos lugares mais inusitados, como rinha de galo, minúsculas salas de estar, e como se pode prever em muitos destes locais o maior problema era o fornecimento de energia. Mesmo assim os desafios foram superados, e o material coletado poderá ser conferido no CD “Cantador de Chula”, que traz uma seleção criteriosa de sambas chulas, com o cuidado para que estivesse representada a diversidade sonora das diferentes localidades.

Tadeu Mascarenhas denomina de gravação documentário esta forma espontânea de registro, sem muito controle e previsão do trabalho. “ É uma gravação documentário. Não é nenhum disco feito em estúdio. É uma captura no lugar de origem do grupo. O processo de produção dele não foi convencional como seria hoje produzir um disco porque ele é meio documentário. Não dá pra fazer como se faz com músico de estúdio. Você vai gravar um instrumento, depois outro.” Ele também enfatiza que este formato é mais compatível para a gravação do samba chula, pois dá mais liberdade para os sambadores se expressarem de forma descontraída, alegre e autêntica, como deve ser uma roda de samba. “ Porque o samba é muito alegre. É um encontro que eles fazem. Não é um show de música ensaiado que eles combinam os acordes. É uma outra relação, comportamento. Isso foi o objetivo mais perseguido. Era passar essa energia da coisa. Justamente por isso a gente foi lá, não trouxe eles cá (pro estúdio), pra eles não ficarem travados, não fluir. Era um encontro mesmo, né . Fazer a roda, tomar cachaça e sambar”.

A comunidade do Samba de Roda

O Cantador de Chula foi concebido pela coordenadora Katharina Döring como um projeto inserido nas atividades de salvaguarda do samba de roda, previstas no Dossiê do Samba de Roda que foi encaminhado à UNESCO em 2005. Neste projeto, a preocupação tem sido maior com os mais velhos, que representam a memória viva do samba chula. A arte de cantar chula praticamente não encontra mais seguidores entre a segunda e terceira geração de sambadores do Recôncavo baiano, embora atualmente existam vários sambadores jovens que tocam instrumentos de percussão e corda ao estilo tradicional. Um dos resultados esperados do projeto é que a grande distribuição da obra em áudio e vídeo no Recôncavo contribua para despertar o interesse dos jovens para conhecer e aprender a arte cantar e tocar o samba chula e buscar suas referencias com os mestres ainda vivos.

Desde o começo do projeto Cantador de Chula, a Associação Sociocultural Umbigada trabalha em parceria com a Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia (ASSEBA) e com a participação de quatro assistentes sambadores, lideres das comunidades das quatro regiões abrangidas. A coordenadora afirma que “uma das questões fundamentais é a participação de assistentes sambadores de modo a integrar as pessoas da zona rural em projetos de pesquisa e produção cultural, possibilitando a aprendizagem e o estágio prático que os incentivariam a desenvolver os próprios projetos em torno do samba de roda nas suas comunidades.”  Esta prática tem dado certo, porque os assistentes por sua vez começaram a interagir e organizar os encontros regionais do Samba de Roda sob a liderança de Rosildo Moreira, diretor da ASSEBA e também assistente sambador do projeto. Outro assistente sambador, Fernando de Santana, utilizou o material gravado para inscrever seu próprio projeto no Premio Pixinguinha Bahia e foi selecionado com o grupo Samba Chula de São Braz. Da mesma forma, recebemos a noticia de que o assistente sambador Paulo de Almeida da região do Agreste, produziu a viagem do grupo de samba de roda da sua região para o festival de Cultura Popular do Crato em Juazeiro do Norte em novembro de 2008.

O lançamento festivo do Cantador de Chula será no dia 24 de outubro,  na Casa do Samba em Santo Amaro, quando será exibido o documentário “Cantador de Chula” e prestadas homenagenes ao ex-ministro e cantor e compositor Gilberto Gil e ao poeta, repentista e compositor Bule-Bule, pessoas responsáveis por deixar essa pedrinha rolar .... bem lembrada na chula composta pelo mestre Paiao de Teodoro Sampaio:

Estamos participando da cultura do Brasil

agradecemos ao presidente e também Gilberto Gil !...”

Katharina Döring

Serviços

Lançamento Santo Amaro 24 de outubro 2009

Casa do Samba e Teatro Dona Cano

                  

15h          Abertura - mesa redonda e representantes da cultura, parceiros, patrocinador, MinC

                Homenagens a Gilberto Gil e Bule-Bule

16h30      Exibição do documentário”Cantador de Chula” no teatro Dona Cano

18h          Feijoada                                                                                            

18h30      Apresentação do grupo Samba Chula de São Braz e Samba de Viola União Teodorense na Casa do Samba.

Última Atualização ( 22 de outubro de 2009 )