São Paulo, 28 de Novembro de 2009
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A comunicação do povo
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Por Revista RAIZ.
21 de junho de 2009
Considerado um dos maiores teóricos da follkcomunicação, Roberto Benjamin destaca os contextos populares como protagonistas das práticas comunicacionais.


Por Nice Lima


Há a predominância, em muitos ambientes, principalmente nos acadêmicos, da ideia de comunicação muito atrelada aos veículos da grande mídia. Contrariando essa interpretação, a Folkcomunicação é definida por Luiz Beltrão* como um processo de intercâmbio de informações e manifestações de opiniões, ideias e atitudes de massa, através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore . Beltrão foi o fundador da Folkcomunicação e Roberto Benjamin é seu ilustre seguidor. Foi Benjamin, o responsável pelo primeiro ensaio sobre os maracatus rurais (presente no livro Antologia do Folclore no Século 20).

Roberto Benjamin é Presidente da Comissão Pernambucana de Folclore e livre docente do Programa de Pós-graduação em Extensão Rural e Desenvolvimento Local da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Em entrevista ao Portal RAIZ., o pesquisador fala sobre folclore, povo, mídia, políticas culturais para os contextos populares e interesse da classe média pelas manifestações artísticas da cultura popular.


Portal RAIZ.: Quais são as controvérsias que existem em relação ao termo folclore?
Roberto Benjamin:  Esse termo “folclore” foi muito desgastado, porém os pesquisadores mais tradicionais continuam a utilizar e a insistir na necessidade de mantê-lo, mesmo porque em outros países, sobretudo nos EUA, o folclore constitui inclusive carreira acadêmica, então o Brasil resolver inventar algum termo diferente é meio problemático, não é?

Portal RAIZ.:  Um argumento que os críticos do termo folclore utilizam é que ele carrega muito forte a ideia de passado, coisa ultrapassada, “coisa de museu” e não contempla as mudanças que acontecem com as culturas populares...
RB: A ideia de tradição como uma coisa mumificada é completamente falsa. Tradição é entrega. A palavra vem do latim e o termo mantém esse significado. Então tradição é uma ideia que se renova constantemente. Não existe tradição morta.

Portal RAIZ.: Há ainda aqueles que rejeitam o termo folclore urbano. Que exemplos poderíamos citar de folclore urbano?
RB: As lendas urbanas são exemplos de folclore urbano, o caso dos ex-votos, também os cemitérios das grandes cidades. Todo cemitério tem um santo, um santo não-canônico e não reconhecido pela igreja e que é objeto de devoção popular e que tem sorte de ex-votos, inclusive correspondências e peças de vários materiais. Em Recife, por exemplo, temos a Menina Sem Nome, uma criança que foi encontrada estuprada e morta na praia e não foi reclamada por ninguém da família. O túmulo dela é sempre um dos mais visitados nos dias de finados. Esse caso pode ser considerado um exemplo.

Portal RAIZ.:  Que avaliação o senhor faz da maneira como os contextos populares são retratados na mídia?
RB: A grande imprensa, a tv e o rádio só se interessam pela cultura popular enquanto coisas exóticas e, excepcionalmente, em alguns momentos do ano, como o dia do folclore, o São João e o Natal. A cobertura do carnaval é muito superficial e inclusive com jornais a serviço de órgãos do governo. O carnaval é sempre muito bom, mas se você prestar atenção, vai encontrar a logomarca do governo do estado e da prefeitura em todas as matérias sobre carnaval. É uma cobertura que interessa a quem está no poder e reflete, exclusivamente, os interesses do governo. Não há nenhum senso crítico. E várias manifestações que são minorias estão completamente fora da cobertura.

Portal RAIZ.:  Numa época de mais facilidade de acesso a bens tecnológicos pelo povo: tv e internet, por exemplo...Existe o risco dessas tecnologias influenciarem o desaparecimento de manifestações artísticas da cultura popular? O mamulengo, por exemplo, muitos consideram que perdeu abrangência com a televisão.
RB: O rádio e a tv estão absolutamente disponíveis. A inclusão digital é ainda uma proposta. O governo tem feito um certo esforço nesse sentido, inclusive  o Ministério da Cultura, com a criação de pontos culturais, mas, na verdade, nós temos vários grupos e manifestações populares - como inclusive os terreiros de candomblé - que estão incluídos na internet, mas, na verdade, o grande público receptor ainda não é o mesmo que recebia as formas de comunicação mais tradicionais.

Portal RAIZ.: Que avaliação o senhor faz das adaptações que os grupos da cultura popular têm de realizar para se encaixarem num mercado da produção cultural? São grupos que precisam, por exemplo, de CNPJ para concorrer nos editais de incentivo à cultura.
RB: Há um lado positivo, a gente não pode negar porque, na verdade, a maior parte dos grupos necessita de recursos e somente alguns buscavam esses recursos antes. Mas a forma como o governo está propondo está criando uma categoria que não existia que é o produtor cultural, uma pessoa que não produz nada, apenas intermedia o grupo popular para obter recursos através de projetos e isso é uma coisa incrível. Quando se falou nessa possibilidade, imaginava-se que os próprios grupos se habilitariam para obter esses recursos, mas com tanta burocracia, é necessário um intermediário que venha a se denominar produtor cultural para obter a liberação desses recursos. Então é uma coisa inacreditável pensar uma coisa dessas, de que o governo esteja fomentando a intermediação entre os grupos populares e o próprio governo. É um lobby, no fundo, é um lobby.

Portal RAIZ.:  As capacitações de elaboração de projetos poderiam servir para amenizar esse quadro?
RB:  Serviriam sim, se os grupos tivessem pessoas habilitadas para elaborar esses projetos. A maior parte desses cursos é frequentada por pessoas da classe média, pessoas desempregadas que acabam se tornando intermediários, “produtores culturais”.

Portal RAIZ.: Qual seria uma alternativa mais justa para resolver essa questão?
RB: Eu acho que os órgãos públicos poderiam ter pessoal técnico habilitado para elaborar os projetos e auxiliar os grupos populares.

Portal RAIZ.:  Esse interesse da classe média pela cultura popular, o senhor considera modismo?
RB: Considero esse interesse modismo e é uma coisa em que não há muita sinceridade. O interesse é por aqueles grupos que conseguiram aparecer na mídia, outros grupos estão por aí e não tiveram nenhuma chance de ser vistos pela classe média.

Portal RAIZ.:  Seria um interesse sem profundidade, sem preocupação com as reais estratégias comunicacionais desses grupos?
RB: Pois é, nada disso é tocado. Além disso, a gente também deve levar em conta que o tempo e o lugar de apresentação desses grupos não estão sendo respeitados e isso é altamente danoso. Por exemplo, um grupo de turistas, ordinariamente, não aguenta assistir oito horas de uma apresentação de cavalo marinho.

Portal RAIZ.: Isso tem relação com o que Nestor García Canclini - teórico latino-americano – fala sobre a espetacularização das manifestações das culturas populares e das adaptações que esses grupos têm de fazer para se adequar aos mercados.
RB: Sim, claro. Para se adequar a um mercado, eles têm de renunciar a uma parte da tradição deles. E com a repetição dessa renúncia, essa tradição vai desaparecer. E na medida em que você tem um espetáculo com sessenta personagens e os atores são poucos e repetem os personagens, na medida em que o personagem é retirado para a simplificação do espetáculo, na geração seguinte, o personagem vai desaparecer; o ator terá sido convencido de que aquele personagem não tem a menor importância para o grupo.

Portal RAIZ.:  Quais as evidências desse tipo de degeneração nos folguedos?
RB: Alguns bois de Pernambuco, por exemplo, já se reduziram à grande roda final em que os personagens aparecem para dançar e os enredos deixaram de ser apresentados. Um boi que duraria nove horas fica reduzido a quinze minutos. Outro exemplo são os maracatus rurais: na apresentação dos maracatus rurais na passarela, os poetas são praticamente proibidos de cantar. Os maracatus passam diante dos palanques e os poetas não cantam. Na verdade, para se ouvir um poeta de maracatu rural é preciso ir para a sede do maracatu e, de preferência, ouvir o que é um ensaio, que se chama sambada.



*BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação, um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de ideias. Brasília: UNB, 1967.



Algumas obras de Roberto Benjamin:


A festa do Rosário de Pombal. (em colaboração com Osvaldo Meira Trigueiro). João Pessoa: UFPB. 1977. 114 p. il.

Folguedos e danças de Pernambuco. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife. 1989. 134 p. il.
Contos populares brasileiros - Pernambuco (coordenador). Reci­fe: FUNDAJ, Ed. Massangana. 1994. 376 p. il. - ilustrado
 
A fala e o gesto - ensaios de folkcomunicação sobre narrativas populares (organizador). Recife: UFRPE. 1996. 152 p.

Itinerário de Luiz Beltrão (organizador). Recife: Associação da Imprensa de Pernambuco / Fundação Antônio dos Santos Abranches - FASA-UNICAP, 1998, 311 p. il.

Pequeno dicionário do Natal. Recife: Sociedade Pró Cultura, 1999, 165 p. il.
Folkcomunicação no contexto de massa. João Pessoa: Universitária UFPB, 2000, 150 p. il.

Carnaval: cortejos e improvisos (em colaboração com Maria Alice Amorim), com introdução de Jomard Muniz de Brito Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife. 2002. 124 p. il. (Coleção Malungo, 5).

A África está em nós, livro 1 – ensino fundamental . João Pessoa: Editora Grafset, 2007. 85 p. il. (ISBN 85-87872-37-0)

A África está em nós, livro 2. João Pessoa: Editora Grafset, 2007. 104 p. il. (ISBN 85-87872-34-0)

A África está em nós, livro 3. João Pessoa: Editora Grafset, 2004. 167 p. il. (ISBN 85-87872-24-9)

Folkcomunicação na sociedade contemporânea. Porto Alegre: Comissão Gaúcha de Folclore, 2004, 153p. il.

A África está em nós, livro 4. João Pessoa: Editora Grafset, 2005. 176 p. il. (ISBN 85-87872-23-0)

Ali e os camelos. João Pessoa: Editora Grafset, 2007. 11p. ilustrações de J.B.Neto e Alzir Alves (ISBN 978-85-87872-52-4)                           

A serpente de sete línguas. João Pessoa: Editora Grafset, 2007. 24p. ilustrações de J.B.Neto e Alzir Alves (ISBN 978-85-87872-53-1)                  

Pequeno dicionário do Natal, 2. ed. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2007. 164p. il.

Romanceiro de tia Beta, em co-autoria com Altimar Pimentel e Braulio do Nascimento. João Pessoa: Fundo de Incentivo à Cultura Augusto dos Anjos, 2007, 97p. il (anexos: 2 discos compactos)

A rainha Ginga. João Pessoa: Editora Grafset, 2008. 22p. ilustrações de J.B.Neto e Alzir Alves (ISBN 978-85-87872-56-2)