A congadeira Adriana Braga explica a Congada mineira ao Portal RAIZ.Por Thereza DantasFotos divulgaçãoO Brasil tem diversas manifestações populares. Religiosas, profanas, históricas ou adaptadas, o que importa é que muitos mestres mantém com decisão férrea essas manifestações vivas. Fonte de referências para criadores, na nossa música, nas artes plásticas, na literatura, essas manifestações estão retratadas. O curioso é quando artistas estrangeiros, talvez pela novidade, com certeza pela beleza, constroem um mural de 15 metros de largura X 5 metros de altura para congelar no tempo uma manifestação tão popular quanto o Congado. É o caso dos artistas norte-americano John Ahearn e o porto-riquenho Rigoberto Torres. Convidados a conhecer o
Museu Inhotim, situado na cidade Brumadinho, em Minas Gerais, os dois escultores trataram de deixar dois enormes painéis. O “Abre a Porta” (2006) conta a pequena história do Congado mineiro e o outro painel “Rodoviária de Brumadinho” (2005), mostra as pessoas do região viajando tranquilamente em um transporte coletivo.
No painel “Abre a porta”, as figuras saem tridimensionalmente do quadro e podemos observar um personagem, uma mulher vestindo farda branca e usando um chapéu cheio de fitas coloridas de cetim. A mulher é Adriana Regina Braga Silva, 33 anos, três filhos, congadeira de Sapé, descendente de quilombolas que hoje é a primeira capitã da Congada. Essa figura que mantém a tradição viva e é inspiração para dois artistas estrangeiros, trabalha em Inhotim em um quiosque de lanches no meio de um pequeno lago, cercada das plantas e esculturas do lugar, servindo seus pães de queijo e cafés. Adriana é uma figura de sorriso largo e respostas diretas. Na nossa conversa Adriana nos explica algumas diferenças importantes de sua Congada, sobre seu povoado e sua descendência quilombola.
O que é a Congada?A Congada é uma manifestação cultural e religiosa de influência africana celebrada em algumas regiões do Brasil. Vindo da África, inspirando-se no Cortejo aos Reis Congos que era uma expressão de agradecimento do povo aos seus governantes. O cortejo trata basicamente de três temas: a vida de São Benedito, o encontro de Nossa Senhora do Rosário e a representação da luta de Carlos Magno contra as invasões mouras. São as Irmandades Negras que mantém essas tradições, os moçambiques, os congados e as cavalhadas que enchem de cor as ruas e praças das cidades de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Goiás. Adriana conhece essas tradições e explica algumas diferenças importantes de sua Congada na entrevista que concedeu a sombra de uma das árvores do Museu Inhotim.
Portal RAIZ.: Adriana, o que eu quero saber de você é sobre o congado, da tua família, da tua participação nesse congado. Como é que você chegou ali no ponto de usar a farda? Adriana Regina Braga Silva: O congado é a minha família. Eu acredito em Deus, aí depois nos meus filhos, e depois no congado. E acontece o seguinte o nosso congado é passado de geração em geração, de família para família...
Portal RAIZ.: Passa de pai para filho? Adriana Regina Braga Silva: Isso. Antigamente lá em Sapé, era só o moçambique. Então meu tio Cotó fundou o congado. Essa é uma diferença, o moçambique e o congado chama-se congadA
Portal RAIZ.: Pois é, eu conheço como congada. Adriana Regina Braga Silva: Isso mesmo, o nome desse cortejo de moçambique e congado é congadA. Eu dançava moçambique desde pequena, naquela época a gente podia bater a caixa (instrumento de percussão). Aí meu tio Cotó fundou o congado eu fui pra dançar congado. Os mais velhos foram morrendo e aqueles que ficaram falaram pra gente “Olha vocês não podem deixar nossa tradição acabar”. Esse tio antes de morrer brincou comigo. Ele falou que eu dançava e que sabia cantar...
Portal RAIZ.: A Congada tem uma hierarquia? Adriana Regina Braga Silva: Cada um tem seu cargo...
Portal RAIZ.: E qual é a sua patente? Adriana Regina Braga Silva: Mau tio Cotó me chamou para cantar no meio, gostou do que ouviu e falou: “ vc vai continuar aqui no meio cantando, a partir de hoje você é capitã!”
Portal RAIZ.: É comum ter mulheres como capitã? Adriana Regina Braga Silva: É raro. Em várias festas nos chamam na hora da missa, os capitães e normalmente eu sou a única mulher no meio dos homens do moçambique. Meu marido é primeiro capitão...
Portal RAIZ.: Qual a diferença do moçambique para o congado? Adriana Regina Braga Silva: Primeiro o congado dança mais ligeiro, o moçambique é mais tranqüilo e ele leva a coroa e o congado puxa todo o moçambique. Ele sempre anda mais rápido...
Portal RAIZ.: Então os dois são muito parecidos?Adriana Regina Braga Silva: Isso, só que o congado sempre vai mais pra frente. Então, na época eu era sétima capitã, e hoje eu sou primeira capitã. Pois é assim, se falece alguém aí vai subindo o degrau; e hoje eu sou primeira capitã.
Portal RAIZ.: E como foi a sua participação no painel “Abre a Porta” que fica no Museu Inhotim?Adriana Regina Braga Silva: Foi uma loucura, eu não queria participar não..
Portal RAIZ.: Mas você gostou do resultado do painel? Adriana Regina Braga Silva: Eu amei. Porque através do Museu Inhotim a gente viu a importância que a gente tem. Hoje eu me sinto importante, vou falar a verdade. Lá em Sapé, não temos nada disso, porque ninguém abria as portas pra nós na nossa cidade. Hoje a gente está aqui trabalhando, tem bastante gente nossa aqui.
Portal RAIZ.: Como é a comunidade de Sapé? Adriana Regina Braga Silva: Nós somos remanescentes do quilombo, Sapé é um povoadinho. A história lá é a seguinte, foi um negro, escravo que ganhou um pedaço de terra e foi construindo a família dele, foi crescendo e foi crescendo...
Portal RAIZ.: E também foi chegando gente? Adriana Regina Braga Silva: Não, é só a família.
Portal RAIZ.: Então como são os casamentos? Adriana Regina Braga Silva: Primo com primo. Eu e meu marido somos primos.
Portal RAIZ.: E é difícil ter casamentos fora da comunidade? Adriana Regina Braga Silva: A minha irmã foi pra Belo Horizonte e encontrou alguém. A minha mãe é casada com meu pai e são primos, primo de primeiro grau da minha avó e segundo da minha mãe, tudo perto. E assim vai indo. E tem uma família branca.
Portal RAIZ.: Que vem de onde? Chegou lá como? Adriana Regina Braga Silva: Não, é de colégio, aí foi pra lá, arrumou um pedaço de terreno e os filhos deles casaram com as mulheres lá de Sapé que são todas negras, aí fica aquela mistura, café com leite e vai indo.
Portal RAIZ.: E quando se festeja a congada? Adriana Regina Braga Silva: A nossa se comemora no dia 25 de maio
Portal RAIZ.: Todo mês de maio, ou todo dia 25 do mês? Adriana Regina Braga Silva: A gente começa em maio vai até janeiro, aí a gente pára em fevereiro e março por causa da quaresma porque a gente não pode bater as caixas. Elas ficam encostadas, não pode nem cantar as musicas do congado.
Portal RAIZ.: Você poderia cantar uma letra que goste da Congada?Adriana Regina Braga Silva: Tem muitas. Falar ou cantar? Falar. Quando a gente vê a coroa de longe, a gente fica numa empolgação. Meu menino Maurílio vai receber a coroa, na hora que a gente vê a coroa, a fé é tão grande que ele só quer cantar com a coroa! A gente senta e canta assim “eu vi, eu vi, eu vi a coroa dourada” aí eu bato o tamborim... Mas tem vários moçambiques aqui em Minas, uns falam de um jeito outros de outro mas na verdade querem dizer uma coisa só.
Portal RAIZ.: Como assim ? Adriana Regina Braga Silva: Por exemplo eu falo pai xangô, uns falam “bate o tambor”, mas no fundo, é a música num ritmo mas as pessoas trocam as palavras.
Portal RAIZ.: Tem quantas congadas aqui na região? Adriana Regina Braga Silva: Aqui na região deve ter uns 10 mais ou menos.
Portal RAIZ.: Dia 25 de maio é o encontro de vários congadeiros? Adriana Regina Braga Silva: Dia 25 de maio, por exemplo, vem várias Congadas de Belo Horizonte, e faz aquela união...
Portal RAIZ.: Qual a importância do Congado para você, Adriana?Adriana Regina Braga Silva: Pra mim tem grande importância. Eu acho que pelo congado eu consegui muita coisa, por exemplo, esse emprego. Se não fosse através do congado eu não estaria aqui, vocês não iriam me conhecer. Estaria lá em Sapé, dentro de Minas entendeu. E a minha fé é tão grande que tudo que eu quero, assim na medida do possível eu consigo. Tudo que Deus vê junto com São Benedito, que ele é nosso guia lá né?, as amizades, tudo que ele vê, ele vê e fala assim : “ó Adriana isso aqui é seu, está na hora de você pegar o que é seu”, aí eu vou e confio.
O painel “Abre a Porta” pode ser visto no
site oficial do Museu de Inhotim.
A transcrição dessa entrevista foi feita gentilmente por Mariana Dantas.