O músico Paulo Ró, em entrevista exclusiva, fala da cultura popular tradicional “descoberta” pela mídia.Por Calina Bispo
Especial para REVISTA/PORTAL RAIZ
O músico instrumentista e guerrilheiro cultural Paulo Ró, ao lado do seu irmão, o artista multimídia Pedro Osmar, criou no centenário bairro de Jaguaribe (onde morou durante décadas), em João Pessoa (PB), um dos grupos mais importantes de resistência cultural no Nordeste, o Jaguaribe Carne de Estudos.
O grupo tinha por objetivo vivenciar a música livre e aprofundar pesquisas musicais. Também provocava situações de arte-educação, dialogando com outros artistas e outras expressões artísticas. Além de incentivar manifestações culturais na capital paraibana.
A discografia de Paulo Ró reúne as seguintes obras: “Jaguaribe Carne Instrumental” (LP/1992, junto com o Jaguaribe Carne); “Etnia” (LP/1992, junto com o grupo Etnia); “O Jardim dos Animais” (CD/1998, em parceria com o poeta mineiro Ronald Claver); “Olhos de Proa” (CD/2004, em parceria com o poeta e biólogo Vergara Filho); “Vem no Vento” (Cd/2004, junto com o Jaguaribe Carne, contando com participações de Elba Ramalho, Chico César e Zeca Baleiro, entre outros).
Atualmente Paulo Ró está produzindo seu mais novo projeto, o disco de folclore “Cantus Popularis”. Mas ele adverte: “Procuro não me limitar apenas à exibição da música folclórica com a intenção de preservá-la, mas também pretendo desenvolver uma leitura nova e própria da mesma...”.
Em fase de pré-produção o projeto tem prazo para ser concluído (segundo semestre de 2009) por ser patrocinado por uma lei de incentivo paraibana. Nele, estão presentes elementos de tradições populares como Lapinhas, Cocos de Roda, Ciranda, os Cambindas Brilhantes de Lucena, os Congos de Pombal e a Mazurca de Monteiro.
Paulo Ró é cantor, compositor e instrumentista mora atualmente no município de Lucena, litoral norte da Paraíba. Lá, ele coordena um trabalho de resgate do grupo de dança popular “Cambindas Brilhantes de Lucena”. O grupo, desativado desde 1977, voltou a brincar em 1992. No dia 4 de dezembro estará participando como convidado do festival "Mestres do Mundo 2008", no Crato no Ceará.
É sobre este novo trabalho e sobre a condição da cultura popular na Idade Mídia que a jornalista Calina Bispo conversou por telefone e email, especialmente para o Portal RAIZ.
PORTAL RAIZ.: De que forma começou sua vivência junto a essas expressões da cultura popular na Paraíba?
PAULO RÓ. Quando eu era criança, vi nas ruas lá de Jaguaribe grupos de cultura popular. Todo ano no período da festa da Penha minha tia saía em procissão para a praia da Penha. Brincávamos de coco de roda até à hora da saída. Além disso, adorava ver o carnaval na Praça Onze e na Conceição.
PORTAL RAIZ.: O que é o Cantus Popularis?
PAULO RÓ. Cantus Popularis é o resultado da minha vivência com a cultura tradicional. Informações absorvidas pelo meu (in)consciente sentimental e foram se transformando em música, música popular de verdade.
PORTAL RAIZ.: Quais elementos da cultura popular você revisita e como eles são utilizados neste trabalho?
PAULO RÓ. Utilizo e busco inspiração nos ricos e raros nichos onde se podem encontrar as autênticas raízes da cultura musical brasileira como o folclore. Procuro não me limitar apenas à exibição da música folclórica com a intenção de preservá-la, mas também desenvolver uma nova e própria leitura da mesma. Para isso me aproprio de suas características e personalidades, assim como de alguns de seus genuínos intérpretes. Vou modificando, elaborando, fragmentando, adicionando, misturando e distorcendo estes componentes. Pretendo lograr um novo resultado sonoro mais dinâmico, atual e de uma provocativa estética moderna. A partir disso estabeleço como base para um trabalho artístico novo e de personalidade própria, grupos e cantores anônimos. Infelizmente eles não tem o devido reconhecimento devido à falta de apoio e de uma adequada e justa divulgação. Estou desenvolvendo um universo sonoro onde harmonia, cantos e ritmos são transformados através de uma nova instrumentação. Novos arranjos são processados com modernos recursos da linguagem contemporânea sem, no entanto, ocultar a originalidade a beleza e a identidade da música do povo.
PORTAL RAIZ.: Porque fazer isso?
PAULO RÓ. Existe a necessidade de se preservar a cultura tradicional do povo, só que as novas gerações estão acostumadas a ver as coisas através dos olhos da TV. Isto é, tudo muito limpo, vozes com registros sempre iguais e sem sentimento particular. Quando um jovem ouve a voz de um cantor de música tradicional cada um com sua especificidade, com características únicas, mas sem nenhum elemento televisivo que possa ser reconhecido pelas pessoas como sendo "de qualidade", ele acha muito estranho por causa da espontaneidade com que essas pessoas se expressam, sem se preocupar com o esganiçado natural da voz e sem se preocupar com o que as pessoas vão pensar disso, o que interessa é seu sentimento verdadeiro, real. Com este CD queremos fazer chegar às novas gerações a música desses grupos folclóricos de maneira que elas possam perceber a beleza de sua poesia, ritmos e melodias.
PORTAL RAIZ.: Como estas manifestações se encontram hoje?
PAULO RÓ. Os grupos "folclóricos" estão, podemos dizer hoje, no lugar onde deveriam estar, há muito tempo, ou seja, freqüentando com mais assiduidade palcos e praças de suas cidades. Estão retomando o coração do povo. Muitos que estavam desativados, hoje estão reatirculados a partir de trabalhos de incentivo e divulgação dessa arte.
PORTAL RAIZ.: Porque as novas gerações não se identificam tanto com essas expressões? Esse distanciamento da cultura local se deve a quê?
PAULO RÓ. Acho que ligam a cultura popular tradicional à “coisa antiga”. Estar ligado a isso é não ser moderno, não estar na moda. Moda e modernidade é “Malhação”, novela das sete. Essas coisas que a juventude dá importância, mas por puro desconhecimento. Não sabem que a mais moderna tendência da música mundial é a incorporação da música tradicional às linguagens modernas.
PORTAL RAIZ.: Apropriação/transformação cultural. Como lidar com isso quando o objetivo é tornar as culturas tradicionais mais "interessantes" para os jovens formados por uma cultura totalmente midiática?
PAULO RÓ. Exatamente, grupos europeus como Deep Forest, Ojos de Brujo, a indiana Anoushka Shankar, o nigeriano Youssou N’Dour, o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e mesmo aqui no Brasil o trabalho iniciado por Chico Science, fazem isso. Alguns colocam o trabalho original e acrescentam elementos modernos, outros têm um trabalho de música moderna e acrescentam elementos de música tradicional, não sei se para transformar ou para fazer com que ela possa estar hoje viva e continuar viva amanhã. Na verdade o grande problema é o desconhecimento de todo esse universo musical que não chega aos ouvidos das pessoas.
PORTAL RAIZ.: Como essas manifestações tradicionais lidam com a cultura midiática?
PAULO RÓ.Com muita dificuldade, eu acho, porque afora rádio e tv, a cultura midiática ainda é de difícil acesso para a grande maioria da população.
PORTAL RAIZ.: Como você vê isso? É possível afirmar que estas culturas estão mundializadas, ou até mesmo padronizadas?
PAULO RÓ.Com certeza você pode ter acesso a qualquer coisa através da internet. Isso faz com que as coisas fiquem padronizadas, comuns a tudo e a todos. Existem grupos de música pop com as mesmas características no mundo todo, todos iguais, mas isso é bom?
PORTAL RAIZ.: O que você entende por manifestação tradicional e cultura popular? O popular e o tradicional são a mesma coisa?
PAULO RÓ. Acho que as manifestações tradicionais são expressões da cultura popular. O problema é que a palavra popular hoje tem um outro significado, que poderíamos chamar de “popularesco”, trata-se na verdade de uma cultura de massa criada a partir de elementos da cultura popular, mas com o único intuito de ganhar dinheiro fácil.
PORTAL RAIZ.: E porque é importante se conhecer essas expressões em tempos de globalização e sociedade midiática?
PAULO RÓ. A frase de Elis Regina diz tudo, “é preciso conhecer o passado para conhecer o futuro” e tem uma outra de um desses filósofos aí que eu não sei o nome que diz “cante sua aldeia e você falará para o mundo”. É isso.
Sobre a origem do termo CambindasDe acordo com o pesquisador e professor de Folk-comunicação, Roberto Benjamin, inicialmente os brincantes eram só masculinos e muitos grupos tinham a denominação de cambinda. A palavra vem de Cabinda, região ao Norte de Angola, acima do rio Congo.
Em seus estudos, Benjamim admite que esta possa ser uma pista para a resposta a origem do Maracatu de baque solto. Segundo o pesquisador, um grande contingente de escravos no Brasil era chamado de cambindas. Há ainda grupos de cambindas - informa Benjamin - "que são só masculinos: apresentam-se na Paraíba, em Taperoá e na praia de Lucena; e há cambinda em Pernambuco, em Ribeirão e Pesqueira; e houve em São Bento do Una e Triunfo”.
A hipótese sob a qual trabalha Roberto Benjamin é a de que o maracatu de baque solto tenha evoluído dos grupos de Cambinda, que agregaram elementos de outros folguedos. Curiosamente, os dois mais antigos maracatus de baque solto, em atividade, chamam-se Cambindinha, de Arassoiaba (fundado em 1914) e Cambinda Brasileira, do engenho Cumbe, em Nazaré da Mata (fundado em 1918).