São Paulo, 28 de Março de 2017
Seções
Agenda de Eventos
Blogs
Entrevistas
Últimas Notícias
   
Vendas
Cultura e Pensamento


 
O Brasil de Hércules
Imprimir E-mail
Por Revista RAIZ.
27 de setembro de 2008


Pesquisadora lança livro sobre o viajante francês Hércules Florence


Por Thereza Dantas


Numa linguagem acessível e agradável, voltado principalmente “para o público jovem”, segundo a autora Dayz Peixoto Fonseca,  o livro "O Viajante Hércules Florence - águas, guanás e guaranás" foi escrito baseado nos relatos do diário de bordo do europeu.  Mais conhecido como o inventor da Fotografia no Brasil, Hércules Florence era desenhista e pintor. Nasceu em Nice, França,em 1804, e faleceu, em 1879, em Campinas, cidade do interior paulista, deixando importante contribuição à cultura brasileira.

O leitor pode apreciar cerca de 100 desenhos e relatos do viajante artista que foi do estado de São Paulo ao Pará pelos rios brasileiros e retratou a natureza e a gente brasileira."O Viajante Hércules Florence - águas, guanás e guaranás" traz informações e reflexões do jovem francês sobre a Expedição do embaixador da Rússia no Brasil, o Barão de Landgsdorff (1825 a 1829). O livro mostra as aventuras de um europeu encantado com a beleza da natureza escreveu e desenhou sobre a fauna e a flora.

Sobre a Expedição Langsdorff
A Expedição Langsdorff pelo interior do Brasil (Séc. XIX – de 1825 a 1829 – período de D.Pedro I) tinha a finalidade de aumentar o conhecimento sobre o país. A viagem foi feita por rios, de Porto Feliz (Rio Tietê), até Belém (Rio Amazonas) cruzando as Províncias de São Paulo, Mato Grosso e Pará. Passaram por matas do cerrado de Mato Grosso,
Pantanal, e a floresta amazônica, praticamente intocada. Pararam em vilarejos, vilas, cidades e lugares de habitações indígenas. Hércules se preocupava com as características étnicas e culturais. Para ele, o retrato não era apenas a representação de um indivíduo, mas elemento de uma tribo, de um povo. Os ornamentos, a pintura sobre a pele, os utensílios, os modos de morar e de se relacionar eram hábitos culturais que faziam parte da identidade da tribo. Desenhou também alguns índios ambientados na vida urbana, prestando serviços subalternos.

A seguir uma entrevista com a autora do livro “O Viajante Hércules Florence – águas, guanás e guaranás, Dayz Peixoto Fonseca.

Portal RAIZ.:  O livro é para o público infanto-juvenil?
Dayz Peixoto Fonseca: É para um público jovem, mas não de forma exclusiva. O bom é que adultos têm lido o livro e apreciado bastante. Dos jovens, não tenho tido retorno. Não cheguei a promover uma divulgação do livro como “literatura infanto-juvenil”. Até agora poucos jornalistas se manifestaram quanto a essa característica. Meu editor sempre esteve atento a esse perfil do livro. Mas como o tema da viagem é de interesse bastante amplo, o livro tem sido vendido para todas as faixas de leitores.  Para mim, seria uma alegria se ele entrasse em programas de leituras escolares. Acho que ele vem de encontro ao prazer da leitura e do conhecimento.


Portal RAIZ.: Qual a importância do olhar estrangeiro na formação cultural do país?
Dayz Peixoto Fonseca: A formação européia de Hércules permitia-lhe, durante a viagem, uma visão de distanciamento da realidade brasileira.  Em suas anotações, ele usava uma narração realista e muitas vezes poética – estilo talvez adquirido nas escolas francesas ou lendo os livros de sua predileção. Hércules quando embarcou para atravessar o Oceano Atlântico, tinha alguma referência sobre o Brasil através de mapas e literatura de viagens. Quanto ao mais, nem imaginava o que viria encontrar.

Na viagem comandada pelo Barão de Langsdorff,  Hércules fazia seu próprio diário de viagem. Ele não só anotava aquilo que observava. Mas procurava o conhecimento e o entendimento.  Assim, registrava as características dos rios, das florestas, das cidades, da organização social, economia, formação da língua, o caráter das pessoas, e é claro, registrava suas impressões quanto a beleza dos rios (rio Paraguai – “o mais belo caminho do mundo”) , da fauna (os urubutingas – “um dos mais belos pássaros das florestas do Brasil”), dos crepúsculos. E muito mais.

Portal RAIZ.: A partir de que relações pessoais a Sra. iniciou a pesquisa sobre o viajante Hercules Florence?
Dayz Peixoto Fonseca: A primeira pessoa que me falou da importância de Hércules Florence foi seu bisneto, Arnaldo Machado Florence. Eu era diretora do Museu da Imagem e do Som de Campinas e ele me procurou para falar de seu projeto visando o reconhecimento de seu bisavô como o inventor da Fotografia. Hoje, Hércules Florence já está nas enciclopédias com o devido reconhecimento, como seus descendentes desejaram. O tempo passou, tive muitas outras tarefas, o Sr. Arnaldo faleceu e, na seqüência, conheci sua filha, Teresa Cristina Florence.

Ao fazer uma pesquisa sobre a fotografia em Campinas, quis falar um pouquinho do Hércules Florence. Procurei então a Teresa Cristina.  Aí começaram os meus primeiros levantamentos de dados sobre o notável Hércules. Em seguida, aproveitando a importância da Internet como meio de comunicação, resolvi fazer um website sobre ele, que resultou num ensaio biográfico intitulado “Hércules Florence, o inventor da fotografia”, que hospedei em meu nome: www.dayzpeixotofonseca.com.br/herculesflorence.

Durante a elaboração do website, fui refletindo sobre as fantásticas descrições que Hércules fazia da paisagem brasileira, das tribos indígenas, das características das cidades, enfim, tudo que ele observava e anotava -  para mim - tornava-se uma literatura maravilhosa sobre o Brasil. Fiquei encantada.

Meu novo trabalho seria um livro, onde eu colocaria Hércules como artista diante da paisagem brasileira.  Pedi ajuda à Teresa Cristina Florence, e ela achou ótimo e se dispôs a colaborar.  Esclareci a ela que não seria um livro exaustivo, acadêmico, mas apenas um “livrinho”. Ela adorou a idéia e o carinho, é claro.
Na verdade, foi muito trabalhoso escrever “O Viajante Hércules Florence – águas, guanás e guaranás”. Mas depois que o livro nasceu passei a considerar o quanto de satisfação eu tive, assim como,  a grandeza da  amizade que ficou entre mim e as pessoas que participaram mais de perto de sua realização, como a Teresa Cristina Florence, a Sônia Fardin, Filomena Romeiro e o jovem designer, João Arthur Cavalcanti. Sempre que precisava, tinha uma dessas pessoas para dialogar.  Eles deram ao meu projeto editorial uma espécie de acolhimento e acalento.  Posso dizer que, com eles, realizei meu projeto libertário. É muito, para um “livrinho”?

Portal RAIZ.: Tem muita ficção no livro?
Dayz Peixoto Fonseca: Ficção no sentido de invenção, parece que não. O que existe de mais forte no livro é o desejo de transmitir a verdade; a verdade que Hércules Florence procurou registrar. Como escritora, eu fiz escolhas do que gostaria de contar e dos modos de narrar. A minha subjetividade se manifestou aí. Realmente foi muita subjetividade! De certo modo, parece que triturei o texto. Bem, isso pode acontecer quando um livro fala sobre outro, em forma de releitura.   Requer transformações mas sem alterar a verdade, a substância do original. O livro de Hércules Florence – “Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas – de 1825 a 1829” -  pode ser considerado um documentário de época ou um clássico. E assim o respeitei. Selecionei alguns temas e os organizei em capítulos, falei sobre a Expedição Langsdorff, sua organização, seu itinerário, e os registros documentais de Hércules Florence. Deixei com as próprias palavras do viajante-artista as descrições sobre as cidades, vilas e lugarejos, porque sua narração, para mim, é História. Queria que vissem isso. Dei um destaque aos “retratos” dos índios das diversas tribos que conheceu. Retirei alguns personagens do “fundo de cena”, vivendo nas florestas, cidades ou fazendas, existentes ou de “ouvir dizer”,  e transformei-os em personagens principais do capítulo Pequenas Histórias.

Portal RAIZ.:  Quanto tempo a Sra. demorou para publicar o livro?
Dayz Peixoto Fonseca: Se for considerado o tempo de pesquisa a partir do primeiro momento em que me interessei pelo Hércules e saí à procura de algum material, foi cerca de oito anos. Mas o livro, propriamente, eu iniciei em janeiro de 2006. Então, passei a ampliar a bibliografia que já tinha, a completar meu arquivo de imagens dos desenhos de Hércules a partir de livros publicados sobre a iconografia brasileira e o material e o trabalho iam aumentando. Isso levou algum tempo... Considero que o fato de não ter tido um compromisso com uma data para a publicação do livro me favoreceu. Com a decisão de não fazer o livro com recursos de incentivo fiscal (Lei Rouanet), acabei me sentindo mais livre para ter o tempo necessário às reflexões, pesquisas, revisões, reflexões, pesquisas, revisões ... muitas vezes. Cheguei até mesmo a fazer uma pausa para escrever uma novela, para dar um tempo e conseguir uma visão mais distanciada do livro.  

Portal RAIZ.:  O livro é uma homenagem ao pesquisador francês ou quer chamar a atenção para a vida dele no país?
Dayz Peixoto Fonseca: Já durante minhas pesquisas e formatação do website, eu desejei que meu próximo passo deveria ser a elaboração de um livro sobre Hércules. Um livro que falasse da viagem e do encantamento do jovem francês em meio à selva brasileira. De suas descrições das paisagens, das cidades e dos índios. Queria mesmo chamar a atenção dos brasileiros sobre a importância dos inúmeros trabalhos de Hércules, escritos e desenhados. Gostaria que o livro fosse uma homenagem, mas acho mesmo que foi lição de casa de uma pesquisadora cultural.

Serviço:
Livro "O Viajante Hércules Florence - águas, guanás e guaranás"
Days Peixoto Fonseca – Editora Pontes
184 páginas
Quanto: 50 reais
Mais informaçãoes:  (19) 3252-6011

Visite o site sobre Hércules Florence: www.dayzpeixotofonseca.com.br/herculesflorence