 Elomar em Partituras ? cancioneiro reúne informações sobre a carreira do artista, materiais preciosos para músicos profissionais e admiradores da legítima música de raiz.
Por Nice Lima
Elomar é o que se pode chamar de um bom sertanejo, daqueles que retrata com sua música a vivência e o imaginário do seu povo. Habitante da região da Gameleira, Serra da Tromba, município de Vitória da Conquista, Elomar vive na fazenda e não é dado a contatos com a imprensa - há mais de dez anos o músico não concede entrevistas. A coerência marca a sua vida e carreira artística. Agora, a obra desse, que é um dos maiores violeiros do Brasil, ganha um importante registro. Elomar em Partituras ? cancioneiro, patrocinado pela Petrobras, é composto por 14 conjuntos de partituras, caderno de letras e notas de edição, e um livro. João Paulo Cunha é o autor desse livro e a transcrição das partituras teve a direção artística e coordenação musical de Letícia Bertelli. Em entrevista ao Portal Raiz, eles falam da importância de Elomar para a música brasileira de raiz e relevância do projeto para os músicos profissionais e admiradores da obra do artista.
Portal RAIZ. - Qual é a marca desse projeto e por que ele é especial? João Paulo Cunha - Ele é especial por colocar à disposição de músicos e cantores uma obra que, para quem transita entre os universos popular e erudito, sempre foi objeto de interesse. O projeto resgata uma dívida da cultura brasileira com a obra de Elomar, além de atender à demanda de artistas e estudantes. Como se trata de um trabalho muito sofisticado, a partitura é uma porta de acesso fundamental para a compreensão e interpretação da obra. Quem conhecia Elomar e gostava de seu trabalho tem agora um novo instrumento. Para quem não o conhecia, é a possibilidade de crescimento pessoal e artístico.
Portal RAIZ. - Como foi o processo de produção? João Paulo Cunha - Elomar é criador de um universo amplo e complexo, que envolve música, poesia e visão de mundo. Por isso, o processo de elaboração do cancioneiro exigiu um trabalho em grupo. Foram músicos, cantores, fotógrafos, designers, produtores, todos ligados na obra do compositor. Os músicos trabalharam quase dois anos para escrever as partituras a partir das gravações originais. Elomar acompanhou todo o trabalho, esclarecendo dúvidas e elucidando aspectos mais singulares de seu trabalho.
Portal RAIZ. - A transcrição das partituras contou com as participações dos músicos Maurício Ribeiro, Hudson Lacerda, Avelar Júnior e Kristoff Silva. Como foram os trabalhos? Letícia Bertelli - Nosso primeiro objetivo foi encontrar a melhor maneira de grafar cada canção, buscando idéias e signos que melhor representassem o pensamento musical da obra. Após uma simples transcrição para o papel daquilo que era ouvido partimos para encontrar pontos comuns entre canções e linguagens que pudessem traduzir essas idéias com maior fidelidade. As composições de Elomar não encontram na grafia tradicional toda sua possibilidade de escrita, então recorremos a alguns signos mais antigos e mesmo contemporâneos. Foi necessário um pouco de ?criação?, mas acredito que chegamos à algumas formas (ou fórmulas) que ao mesmo tempo esclarecem e simplificam a escrita de uma música de extrema complexidade. Em determinado momento convidamos alguns músicos para ler o material e dialogar conosco sobre a compreensão do material apresentado, o que também foi muito enriquecedor para esta edição. Tomamos como ponto inicial as canções já gravadas e as transcrevemos como na forma original. Posteriormente vieram as alterações sugeridas por Elomar, já que sua trajetória em anos de interpretação trouxe pequenas transformações e hoje ele gostaria que novas referências chegassem aos outros intérpretes.
Portal RAIZ. - Quais foram os critérios de escolha dos materiais que se encontram nessa publicação? João Paulo Cunha - A obra de Elomar é vasta, inclui óperas, concertos, antífonas e outras peças. Há uma parte mais popular e outra mais ligada à música culta. A proposta do trabalho foi registrar em partitura o cancioneiro, as canções, as músicas apresentadas em disco no formato violão e voz. A idéia era cobrir todo o cancioneiro, mas nessa etapa foi colocado em partitura parte significativa da obra, 49 canções. Essa é a porção mais conhecida do trabalho de Elomar, seja pelo registro em disco, seja pelos concertos e cantorias que o artista vem fazendo pelo Brasil nos últimos 30 anos.
Letícia Bertelli - Deixamos para futuras edições as obras instrumentais e também peças que têm como única referência discográfica uma instrumentação diversa da escolhida porque nos obrigaria a realização de arranjos e conseqüentemente algum tipo de interferência na composição.
Portal RAIZ. - Muitos violonistas encontram dificuldades em assimilar "de ouvido" os acordes e melodias complexas da obra do Elomar. Qual a importância de um projeto como esse para os profissionais que têm interesse em executar as músicas do artista? Letícia Bertelli - Acredito que muitos músicos têm a capacidade de transcrever de maneira muito aproximada a obra que está nesta edição. O que encontramos foi algum tipo de metodologia e claro, a possibilidade de muitos diálogos entre uma equipe formada por profissionais com diversas experiências e qualidades. Também a chancela e parceria de Elomar em cada revisão nos traziam segurança de que estávamos no caminho certo. Com esta edição, além de uma interpretação com voz e violão de maneira mais aproximada desses ?acordes e melodias?, a realização de arranjos para outras formações instrumentais e vocais encontrará um material completo, sem a necessidade de recorrer apenas ao ouvido.
Portal RAIZ. - As músicas do Elomar em muito lembram a tradição da música dos trovadores, com temáticas do sertão. De onde vem essa influência e como definir a música que ele faz? João Paulo Cunha - A música de Elomar é de difícil classificação. Por um lado tem todos os elementos da boa música popular; por outro, tem um acabamento formal que a aproxima da música culta. O que é mais interessante é que é uma obra tão bonita que agrada aos dois tipos de público. O músico erudito se impressiona com a forma como ele trabalha a inspiração popular, o público em geral sente grande empatia com as canções, mesmo no que elas têm de mais sofisticado e complexo. Além disso, o compositor criou uma nova linguagem, um dialeto que revela uma parte do Brasil pouco conhecida pela maioria dos brasileiros.
Portal RAIZ. - Houve mudanças significativas no estilo do Elomar do início da carreira até agora? João Paulo Cunha - Em quase 40 anos de carreira é possível perceber uma coerência rara. Elomar já estréia maduro, com temas que ainda hoje são cantados por ele. Desde o começo de sua trajetória ele já produzia nos dois campos, da música popular e erudita. Seu primeiro disco de canções mais populares já traz árias de óperas (o que depois o público ficaria sabendo). Com o tempo pode-se perceber que o compositor vai transitando de forma mais decidida em direção às formas eruditas, sobretudo as óperas e antífonas. Mas sem abandonar o ramo das canções. Não há propriamente mudança artística (a qualidade sempre se manteve num nível muito alto), mas de interesse em aprofundar mais algumas formas eruditas.
Portal RAIZ. - O Elomar estabelece um contato constante com o homem do sertão. De que forma esse homem sertanejo é retratado em sua obra? João Paulo Cunha - Como um sobrevivente e um homem que luta. O sertanejo de Elomar é ligado aos desígnios de Deus e aos ritmos da natureza. Trabalha muito em ofícios hoje desprestigiados (vaqueiro, peão, tropeiro), defende sua cultura, tem valores morais profundos. É um homem bem distante do tipo urbano, sobretudo em sua vocação para servir a valores mais preciosos que o dinheiro. Como o sertanejo de Euclides da Cuha, os homens de Elomar são fortes e heróicos, mesmo que desprezados pela civilização.
Portal RAIZ. - O que representa fazer um tipo de música que, historicamente, não tem encontrado escoamento na grande mídia? João Paulo Cunha - Um compromisso. Elomar não faz música para agradar ninguém, mas para expressar sua verdade. O fato da mídia não divulgar seu trabalho não evitou que ele tivesse uma legião de admiradores em todo o Brasil e em várias partes do mundo. Quem tem a ganhar com a maior difusão da música de Elomar é o público, que pode ter assim contato com um padrão elevado de beleza. Uma cultura de massa que fecha os olhos à maravilhosa obra de Elomar não merece ser chamada de cultura. Fugir à beleza é uma prova de perda de substância humana. Obras como a de Elomar têm tudo para melhorar as pessoas e o mundo. É uma aposta no que o homem tem de melhor.
Serviço: Elomar em Partituras ? cancioneiro Quanto: 150 reais A venda nas livrarias especializadas e por e-commerce no site da Duo Editorial. |