Minas Gerais é...

Publicado em 23/07 02:19
...um inexplicável mosaico de sensações, daqueles bem coloridos e que a gente fica olhando e olhando por um tempo incontável. Há mais de seis anos venho experimentando pedacinhos do mosaico mineiro, sem olhar pro relógio ou virar pra trás. Minas tem que olhar de frente, concentrar-se, pra não perder nenhum brilho, raio de sol ou luar.

Digo isso porque estive semana passada em uma cidadezinha mineira chamada Aiuruoca. Fica pertinho de Juiz de Fora, onde moro atualmente. O nome já me despertava olhares curiosos, quando a placa da cidade aparecia na estrada que me levava a outros lugares. Aiuru...o que?

Aiuruoca - ou "casa dos papagaios", em tupi - foi o lugar que escolhi quando me dei conta que devia parar. Parar com essa correria louca que a gente vive todo dia, meio desorientada, meio sem reflexão. Aí você chega lá e dá de cara com o infinito, e se pergunta se precisa de tanto cinza na vida. O bom mesmo é o verde, a montanha, a cachoeira, o papo desinteressado, o celular esquecido, o relógio parado. Depois de longos dois dias de céu azul, duas noites "enluaradas", uma cachoeira belíssima e incontáveis imagens prazerosas, fiquei com uma pena danada de voltar ao preto e branco, com raríssimas inserções pelo colorido.

PS: Preciso de lápis de cor, giz de cera, argila e papel crepom, pra re-inventar esse cotidiano monocromático.

Esquinas

Publicado em 29/05 19:06
O conceito anda bem difundido: multiculturalismo. Nas idéias, palavras e projetos, ser multicultural faz parte de uma rede de ações/posturas politicamente corretas e amplamente valorizadas no contemporâneo. Na mesma onda, emergem termos como diálogo, intercâmbio, trânsito, mistura. Para além do bem ou do mal, pensar, desenvolver e apoiar projetos que tenham como foco o intercâmbio entre culturas diversas tem sido a bola da vez.

A maré também está para o ser regional, agregando novos conceitos a termos como raízes, tradição, local e global. Da mesma forma, para além do bem e do mal, idealizar projetos que tenham como foco a revitalização ou o retorno ao “local da cultura” tem seu lugar de destaque na engenhoca pós-moderna.

“Mix cultural regional” é o conceito do evento que me fez pensar nisso tudo, o projeto Esquinas do Brasil. O nome e o conceito são indicativos do foco: promover o intercâmbio entre a cultura de diversas regiões do país. Começando por Minas em São Paulo, dia 1º de junho, na rua Minas Gerais, em Higienópolis. “Esquinas de Minas: a cultura dos mineiros no centro da metrópole paulistana” é realizado pela Ong Árvore Cultural, Associação de Moradores e Comerciantes do Bairro de Higienópolis, e LANC Comunicação. Artesanato, culinária, literatura e música estão entre os produtos mineiros a serem apreciados pelos espectadores do evento. ...



... A proposta do Esquinas do Brasil é interessante por inúmeros motivos e gostaria, realmente, de estar em São Paulo no dia do evento. Como não será possível, fico nas reflexões que o conceito do Esquinas me sugere. Não por acaso, comecei esse texto falando de multiculturalismo e regionalismo.

Dois pontos de discussão merecem destaque: primeiro, a idéia de que quanto maiores as possibilidades de contatos interculturais, mais rapidamente caminharemos a uma democracia cultural; segundo, a preocupação de que o conceito de mix acabe diluindo as particularidades de cada expressão cultural, descontextualizada e formatada que estará a manifestação.

Confesso que transito pelas duas crenças. Pisando no solo de idéias da primeira, acredito mesmo nas potencialidades da “movimentação” cultural. Se estamos mesmo de peito aberto e olhar atento às diversas nuances compositoras de cada manifestação, pouco provável não se empolgar com a possibilidade de enriquecer nosso repertório (e oferecer um pouco dele) quando estamos diante do novo. Se parto da segunda crença, preocupo-me com o que vejo em muitas propostas de “contato cultural”. Geralmente (não sempre), resvala-se para o estereótipo, superficial na natureza e, não raro, romântico em qualidade.

Minas Gerais? Pão-de-queijo com café, festas folclóricas, gente hospitaleira, interiorana, de sotaque marcante e ritmado; terra de Drummond e Guimarães Rosa; Ouro Preto, Tiradentes e Aleijadinho. Sim, Minas é mesmo Isso (com maiúscula pelo peso das expressões as quais o pronome se refere). E Minas é grande, tão grande e diversa nos caracteres de cada região que reduzir o terceiro mais populoso estado do Brasil a alguns poucos estereótipos - os que são geralmente proclamados e divulgados na mídia, em políticas públicas e projetos culturais - é justamente não exercitar a percepção das tais nuances e olhares de que falei anteriormente.

Por outro lado ainda, creio que os perigos da estereotipia não devem servir de desalento aos que tem como causa o multiculturalismo, e como projeto o retorno às tradições culturais. Segundo entendo, são pontos de discussão indispensáveis ao desenvolvimento de qualquer política cultural, projeto ou mídia.

De maneira alguma essas linhas são uma crítica ao “Esquinas do Brasil”, mas um foco propagador de questionamentos, do tipo: qual Minas chega à São Paulo? E qual São Paulo vê Minas? No mais, aproveitem o evento, e mais tantos outros que tem como conceito o “mix cultural regional”. Só antes agucem o olhar, não por uma criticidade pessimista, mas pela leitura reflexiva do que nos interpela diariamente, e em diversos meios, sob o rótulo de tal conceito.

Até!

Comunicar para valorizar

Publicado em 06/05 12:45


E já que falei dos movimentos que "me bailam", aproveito pra divulgar um Programa do qual faço parte, aprovado em sua 2a edição no último edital da Lei Murilo Mendes de incentivo à cultura, aqui de Juiz de Fora-MG: o Programa de Educação Patrimonial (PEP) - Cultura Sempre!

COMUNICAR PARA VALORIZAR - 2a edição

Elaborado através de uma parceria entre a Oscip PERMEAR (Programa de Estudos e Revitalização da Memória Arquitetônica e Artística) e uma equipe multidisciplinar de pesquisadores, o PEP - 2a edição - visa dialogar com cerca de 200 alunos de escolas municipais e estaduais juizforanas no sentido de construir uma perspectiva de educação patrimonial articulada à educação para mídia, dando continuidade à proposta da primeira edição.

Democratizar a comunicação para valorização e difusão do patrimônio cultural local é nosso grande desafio, entendendo que o respeito e o valor à diversidade devem estar permanentemente presentes.

As escolas parceiras estão localizadas em quatro comunidades de Juiz de Fora (Benfica, Borboleta, Santo Antônio e Rosário de Minas), as mesmas com as quais dialogamos na primeira edição do Programa. A metodologia para despertar a conscientização acerca do patrimônio comunitário (processo já iniciado na primeira edição do PEP), além de promover sua divulgação, consiste em oficinas de “educação para mídia”. Através delas os alunos são alfabetizados em linguagens midiáticas (rádio-escola, fotojornalismo, videodocumentário e jornal impresso) e orientados a uma leitura crítica das mensagens que chegam via meios de comunicação de massa. Contamos, para isso, com uma equipe de estagiários graduandos em Comunicação Social na função de instrutores das oficinas.

Percebemos que tal proposta de intervenção social é rica no sentido de valorizar, difundir e preservar o patrimônio cultural que muitas vezes é experienciado de forma marginal aos processos de produção midiáticos. Ou seja, o diálogo entre Educação, Patrimônio e Mídia traz a riqueza da possibilidade de canalizar por outros meios o que se julgamos ser importante ao fortalecimento de nosso repertório cultural.

RESGATANDO E VALORIZANDO NOSSA CULTURA - 1a edição

A primeira edição do PEP teve como objetivo o levantamento e registro do patrimônio cultural comunitário através do desenvolvimento de atividades nas áreas de artes plásticas, vídeo, fotografia e teatro. Tratou-se de um instrumento de "alfabetização cultural" por possibilitar às diversas comunidade participantes a compreensão (ou re-apropriação) do universo sócio-cultural e da trajetória histórico-temporal em que estão inseridas, num ciclo dinâmico de criação cultural e prática cidadã. Teve como referência teórico-metodológica as contribuições do Guia Básico de Educação Patrimonial, de autoria de Maria de Lourdes Horta, Evelina Grunberg e Adriane Queiroz Monteiro.

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Fica a dica de intervenção social geradora de muitas raízes!

Contato:
PERMEAR (Programa de Estudos e Revitalização da Memória Arquitetônica e Artística)
32 3212 4700




A volta e o foco

Publicado em 06/05 11:09


Depois de algum tempinho angustiada com o “faz-não-faz” de minhas obrigações como mestranda, o que me custou meses sem postar no blog, resolvi de supetão que preciso continuar a escrever sobre o que movimenta meus pensamentos, para além de linhas acadêmicas ou de formatações normativas.

Alias, ando bem em “trânsito”, fervilhando, com uma vontade enorme de expandir infinitamente. Outro dia precisei gritar com toda força. Tinha acabado de assistir um clássico: “Requiem for a dream”. Se não o fizesse, ia explodir, certamente.

Para além de devaneios meus, o que vim informar nesse pequeno post é a vontade de continuar aqui, pela razão de ser esse “aqui”, sendo lugar (site) da rede, menos limitado e mais desterritorializado que outros lugares tradicionais.

Fico extremamente feliz com a possibilidade de expandir um mundo que existe na minha cabeça, via internet. A discussão sobre práticas e expressões culturais ainda é o foco, mas um foco meio que radial, ainda mais rizomático. Saudações, entre cores e contornos!

O que será, o que será...

Publicado em 27/12 08:12

...de 2008?
Brilho de luz, centelha no olhar, caos na alma, suspiro de vida, cores no céu. E Amor, queridos, em excesso! Sempre! Amem incondicionalmente!
A tradução do que gostaria de dizer nesse fim-de-ano-início-de-ano, antes que eu rume para uns dias no mar, consegui, mais uma vez, em Drummond (antes que me chamem de bairrista, tirem um "teco" de tempo e leiam o poema).

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Receita de Ano Novo

Carlos Drummond de Andrade
In: “Discurso de primavera e algumas sombras”, 1977


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Nostalgia musical

Publicado em 18/12 12:38


Do passado, para o presente

Tenho dito a amigos que ando sentindo uma nostalgia que “dói”, que embrulha e desembrulha o peito, que comprime e relaxa, que dá prazer e fere. Algo desse tipo, meio inexplicável. Mas nostalgia de quê? De tudo (pessoas, risos, cenas, cores, natureza) que me fez cultivar, poderia dizer, o que há de melhor em mim, o que seguro entre os dentes, o que é primavera. Desse “tudo” não faz parte somente o que experienciei de fato. Já sentiu saudades do que não viveu? Eu já, bem perto da máxima “nasci na época errada”, ainda mais quando se trata de saudades “musicais”. Queria ouvir os gritos da Janis Joplin, sentir a energia do Led Zeppelin, viajar com o Pink Floyd, sonhar com a Elis e flutuar com o Secos e Molhados. E precisaria estar “lá”, de frente para o palco, de alma lavada, olhos fechados e ouvidos aguçados. Mas, como nem tudo são flores (e a física quântica ainda não provou que é possível voltar no tempo), restam alguns brotinhos pra satisfazer aqueles que pensam no pretérito e soltam um sonoro: ahhhhhhhhh!

Sábado, dia 8 de dezembro, fui no espetáculo “Nem Secos, Nem Molhados – um tapa no preconceito”, no Cultural bar, em Juiz de Fora-MG. Quem estava se apresentando era o grupo “Nem Secos”, que faz um trabalho super legal a partir de um retrato criativo do panorama musical brasileiro das últimas décadas e da fundamentação histórica dos espetáculos. Integram o grupo atores, cantores e músicos com experiência em diversas manifestações artísticas, o que dá vigor e enriquece de nuances a referida proposta de trabalho. O espetáculo “Nem Secos, Nem Molhados – um tapa no preconceito” celebra o surgimento da banda “Secos e Molhados” e, segundo informa o site do “Nem Secos”, “busca referência na poesia de Manoel Bandeira, tomando como pano de fundo a luta contra o preconceito na construção da dinâmica música-alegria-reflexão-poesia-amor”.

Dizer que o espetáculo foge do lugar comum, ainda assim, é reducionista. É preciso ser parte de platéia e aproveitar as sensações provocadas pelas diversas expressões artísticas evocadas no palco. Artes visuais. Música. Teatro. Poesia. Aí sim, é possível, mesmo que “virtualmente”, deslocar a linha do tempo e imaginar-se frente a frente com um Ney Matogrosso intenso e exuberante. Leve como leve pluma muito leve, leve pousa*. O bom é, por vezes, fechar os olhos, e imaginar-se em outra época. Faço sempre isso quando estou diante de um artista que sabe encarnar outra história, outro artista, outra sonoridade.

O Nem Secos é um dos brotinhos que disse no início, para quem não teve a beleza das flores. E para quem jura que o melhor mesmo é não ser o nomal**. O site do grupo é www.nemsecos.com.br. Delicie-se.

Inté,
Lara

*: referência à música “Amor”, do Secos e Molhados.
**: referência à música “Balada do Louco”, do Secos e Molhados.

Uma viajante bem particular

Publicado em 04/12 14:17
Capixaba que sou, atravessei as montanhas de Minas e, depois de muito pão de queijo com cafezinho quente, não quis mais sair daqui. “O melhor de Minas são os mineiros! Eita povo bom!”, dizia eu a quem amo e mora longe, lá pertinho do mar. Capixaba-mineira que sou, atravessei o céu pela primeira vez e fui parar em Aracaju, no Sergipe. Depois de muito forró, caranguejo, carne seca e macaxeira saí de lá com a seguinte percepção: “O melhor do nordeste, são os nordestinos! Eita povo alegre!”. Aí lembrei de Fernando Pessoa, quando diz que a viagem são os viajantes e pensei na coisa boa que é chegar num lugar desconhecido com o peito aberto, com a alma lavada e frescor no olhar. A não ser que um complô dos deuses tire a beleza das “flores”, sempre se é bem acolhido, sempre se chega da viagem com um tiquinho de saudade e muita vontade de contar um pouco de tudo. Por isso, por que minhas novas “cores” sergipanas saltam aos olhos, é que escrevo essas linhas: um manual de uma viajante particular.

Como chegar a Aracaju? Se puder, vá de avião! Que coisa maravilhosa voar! Se não houver mais graça nisso, reinvente seu olhar, permita-se uma dose de curiosidade. Imagine uma criança voando de avião pela primeira vez: esse será você.

O que irá encontrar em Aracaju? Sotaque carregado, sorriso expandido, dança nos pés e na alma, caranguejo do Pará (dependendo da época), areia no pé, vento no rosto. Uns com tanto, outros, com tão pouco. Mas é assim em todo lugar.

O que fazer em Aracaju? Vá pelas ruas, num dia de sol, e jogue conversa fora, assim, com qualquer um. Nem que for só pra pedir informação sobre este ou aquele ponto turístico, sobre a praia de Atalaia, sobre o Mercado, sobre a Passarela do Caranguejo, sobre a foz do Rio São Francisco, que é pertinho da cidade; mas deixe o novelo correr. A não ser que te chamem de “cabrunco”, o fio de prosa será tão maior quanto sua disposição de terminar o dia embalado por um forró "grudadinho", que é diferente do “pé-de-serra”, no entrelaço das pernas.

Quando ir a Aracaju? Segundo fontes confiáveis, em junho, na época em que se comemora o São João, aí o caranguejo é de lá mesmo e não se sai da cidade sem aprender o tal forró grudadinho. Ou não se sai mais de lá, que mistura pose de capital e porte de cidade pequena. Diz Meyre, uma moça arretada que conheci (irmã do marido da tia de uma amiga), que não troca Aracaju por nada. Deve ser por isso que eu disse a ela: “Uma pena ficar aqui tão pouco tempo. Agora terei que voltar”.

Quando eu voltar, serei outra viajante, mas se de peito aberto, minha alma voltará ainda mais colorida. E terei mais coisas a contar, para quem queira saber.

Marcha Nico Lopes

Publicado em 31/10 22:19
No último final de semana, fui a Viçosa-MG, como de praxe, visitar amigos, namorado. Mas minha ida até a cidade em que formei “comunicadora” (ou comunicóloga, ou jornalista, há controvérsias) teve um ingrediente especial, um evento chamado “Nico Lopes”. É o seguinte, pra ficar no eixo central do dito cujo: uma Marcha de estudantes que aposta na irreverência para propagar denúncias, insatisfações, alegrias e tristezas por quais passa a sociedade brasileira.

Têm blocos com integrantes fantasiados, marchando da universidade até a cidade ao som de tambores, apitos, cantoria e muita gente disposta a perpetuar a tradição da Marcha que acontece há mais de 70 anos. E tá lá no site do DCE (Diretório Central de Estudantes): “É um momento onde os estudantes vão da UFV, atravessando as quatro pilastras, à cidade de Viçosa. Ela termina em um ato na Praça Silviano Brandão, com a leitura do Discurso do Papel Higiênico” (http://www.ufv.br/dce/index.htm)

Mas a Nico Lopes não é só protesto direto. Durante a semana do evento, têm o Festival de Bandas Novas, apresentações culturais, discussões. “Para a Nico Lopes de 2007 pensou-se em aprofundar ainda mais na reflexão da cultura como um elemento de luta e resistência popular nos espaços marginalizados socialmente: no universo urbano, no campo, e na própria universidade” (idem).

Pois bem, acontece o seguinte, no mesmo dia da Marcha (o ápice da Nico Lopes, diriam alguns) as repúblicas da cidade tornaram tradição arrebanhar os estudantes numa balada um pouco diferente da que se propunha a realização da Marcha: as festas de bebidas liberadas. Aí vem uma discussão que se arrasta há alguns anos: estaria a Nico Lopes, tal qual fora idealizada e com os objetivos aos quais se propunha, sendo gradualmente substituída pelo lobby das repúblicas em prol das micaretas?

Lembro bem dessa questão fervilhando quando estudava em Viçosa: uma angústia para o DCE (Diretório Central de Estudantes), que organiza a Marcha anualmente; uma questão de “gosto” para as repúblicas que insistem nas festas de bebidas liberadas. Nada contra festas desse tipo. Já fui a algumas delas, rendendo-me às inquietações/efervescências de caloura e, admito, de tempinho depois também. Mas, há que se convir que um público significativo que poderia encorpar a Marcha e, quem sabe, fazer crescer seu impacto sobre a opinião pública no que se refere às mais diversas angústias por que passa a sociedade viçosense-brasileira, deixa gradualmente os espaços de protesto (que é também espaço de alegria, irreverência e, sim, embriaguez) rumo a grandes festas promovidas por um coletivo de repúblicas, pra ficar, quase sempre “mais louco que o Batman”, em referência ao nome de uma dessas “celebrações” etílicas.

Separar os dois eventos seria, no mínimo, difícil. Tanto que se confundem em suas denominações. Um conjunto de repúblicas promove a Nico Loco, a maior das festas que se desenrolam em paralelo à Marcha Nico Lopes. Bom, pelo menos até esse ano, já que outras repúblicas estão se juntando para “competir” com a famosa Nico Loco (ou seria com a Nico Lopes?). Assim, estaria a Marcha fadada a desaparecer em razão da proliferação das festas de bebidas liberadas? Ao menos a curto-prazo, acho que não.

Resistindo aos trancos barrancos, a Marcha vai se reinventando, há ainda os “resistentes” (em maioria o pessoal dos cursos de Humanas, do alojamento universitário), o desejo de mudança, de protesto, de voz. Com muita ou com pouca gente, mas reinventada (seja no horário, no formato, no dia), creio que sempre haverá motivos para protestar, denunciar, indignar-se. E sempre haverá pessoas que cultivem o desejo por transformação social, ou, pelo menos, por se fazer ouvir em seus anseios. Assim seja, amém!

Ah! Não falei sobre o porquê do nome da Marcha. Segundo informa o site do evento (e minha memória de ex-graduanda viçosense começa a se recordar) é uma homenagem a Antônio Lopes Faria Sobrinho, o Nico Lopes, uma das figuras mais folclóricas que Viçosa já teve. Pra saber mais sobre o tal ilustre cidadão viçosense e a tal Marcha, vale conferir o endereço eletrônico http://www.ufv.br/dce/index.htm.

O barulho dos fogos

Publicado em 14/10 22:38
Dia 12 de outubro, sexta-feira, estouros foram ouvidos ao meio dia em muitas cidades brasileiras. Nas encruzilhadas de respostas possíveis ao acontecido, encontra-se o texto de Ananda Assis, pesquisadora do Grupo GENGIBRE, do qual faço parte. Como o espaço deste blog pretende-se plural e democrático, trago aos leitores o olhar de Ananda sobre os repentes da úlima quinta, com a intenção de refletir acerca do diálogo entre tradição e modernidade. Que o texto estimule a divulgação de olhares complementares, discordantes, concordantes, críticos em relação à temática.


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O barulho dos fogos
Por Ananda Assis*

Em uma conversa informal na pequena cozinha de casa, onde vim passar o feriado do "Dia das crianças", escuto alguns fogos estourarem no céu, e me questiono o porquê? A resposta vem como uma reflexão para o dia: "É para Nossa Senhora Aparecida. Antigamente a gente ficava esperando, hoje pergunta-se por que", diz minha tia Maria dos Prazeres Assis. Ao meio dia do doze de outubro, enquanto algumas pessoas aguardavam ansiosas os foguetes atravessarem os céus para aclamarem o dia de Nossa Senhora, outros escutavam curiosos e até se incomodavam com o barulho. Eis um dos fenômenos característicos da modernidade, e de acordo com a estudiosa Olga Von Simson, esta é a “sociedade do esquecimento”, na qual:

...o ritmo acelerado do trabalho urbano somado a facilidade e rapidez dos meios de comunicação (criadas pelos constantes avanços tecnológicos) colocam o homem comum frente a uma quantidade avassaladora de informações. Tais fatos criam para o homem contemporâneo quase a obrigação de consumir a informação de forma acrítica, sem maior cuidado seletivo, perdendo-se portanto uma das mais importantes funções da memória humana – a capacidade seletiva – que é o PODER de escolher aquilo que deve ser preservado, como lembrança importante e aqueles fatos e vivências que podem e devem ser descartados. A perda do exercício desse poder de seleção nas sociedades atuais constitui o fator fundamental para a formação do que os profissionais da informação chamam de sociedades do esquecimento.**

Minha avó, Berenice de Assis, conta que, pelos meados de 1960, o padre Vitor Coelho de Almeida proclamava pelo rádio de todo o país a missa em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, diretamente do seu santuário em São Paulo, e ele pedia para que todos aguardassem o horário do meio dia para estourarem os fogos. Quando se escutava um repente antes do horário, logo o padre pedia calma aos ouvintes, para que todos os estouros acontecessem em um mesmo momento. De fato, muitas pessoas não tinham acesso ao rádio nesta época e comemoravam a tradição religiosa alguns minutos antes ou depois do horário marcado, mas o importante é que contemplavam e vivenciavam o dia com respeito e louvor. Por volta de meio dia, o céu se enchia com os fogos. Por todos os cantos se avistava uma nuvem de fumaça cobrindo os bairros. Por alguns minutos só se escutava os estrondos. Atualmente ouve-se meia dúzia de foguetes, que cessam rapidamente, e muitas vezes passam despercebidos. Até hoje pode-se ouvir o Padre Vitor, rezando e aclamando o dia de Nossa Senhora Aparecida, no entanto, a sua voz é escutado por poucos.

Assim observamos a predominância da comemoração ao Dia das Crianças, uma data exclusivamente comercial, estabelecida pelo deputado federal Galdino do Valle Filho, ainda na década de 1920. Aprovado pelos deputados, o 12 de outubro foi oficializado como Dia da Criança pelo presidente Arthur Bernardes, por meio do decreto nº 4867, de 5 de novembro de 1924. Mas somente em 1960 quando a Fábrica de Brinquedos Estrela fez uma promoção conjunta com a Johnson & Johnson para lançar a "Semana do Bebê Robusto" é que a data passou a ser comemorada. Logo depois, outras empresas decidiram criar a Semana da Criança, como meio de aumentar as vendas. No ano seguinte, os fabricantes de brinquedos decidiram escolher um único dia para a promoção e "ressuscitaram" o antigo decreto. A partir daí, o 12 de outubro se transformou em uma das datas mais importantes do ano para o setor de brinquedos (informações retiradas do site http://100querer.blogspot.com/2005/10/santa-aparecida.html acesso em 12/10/2007)

Então busco lembrar que os poucos repentes escutados ao meio dia de hoje são parte de um ritual de louvor para Nossa Senhora Aparecida, ressaltando a importância de se rememorar o mito e vivenciar uma parte de nossa história perdida no espaço-tempo contemporâneo.

(*): trecho de artigo publicado na Revista Eletrônica “Nas redes da educação” (www.lite.fae.unicamp.br/revista/index.html)

(**): graduanda em Dança na UFV. Integrante do GENGIBRE - Grupo Interdisciplinar de Pesquisa sobre Cultura Popular.



Ancestralidade, por Drummond

Publicado em 26/09 18:01
Caríssimos!

Citei Drummond (esse mineiro arretado) no último artigo, quando me referi ao fato de serem as lembranças do passado sempre mais belas que o passado em si. Como disse, apesar de algumas luzes se acenderem em minha memória quando tento lembrar quem foi o bendito poeta que falou isso (e essas luzes dizem: Dummond, Drummond!), tenho a impressão que pode ter sido também a Lya Luft a autora da frase-idéia, ou ainda outro poeta, ou outra poetisa, ou algum mortal comum. Enfim, o fato é que procurei em alguns muitos poemas do Drummond a tal frase-idéia e nada. Confesso que foi um olhar meio desatento, então ainda não posso dar o veredicto: quem disse serem as lembranças mais belas que a realidade (nada parecido com a enquete da semana: quem matou Taís, ou Thais?)?

Fica o pedido de ajuda ao leitores, junto com o pedido de desculpas pelo curto-circuito em minha cabeça. Mas nem tudo são lástimas... .
De onde andei a fim de achar o que está perdido em minha memória, trouxe aos leitores um poema do Drummond que incita uma reflexão pertinente desde sempre: o que temos do nosso passado? O que somos do nosso passado? O passado é peça de museu? Peça de museu é cultura viva? Cultura viva e passado podem dialogar?

Ancestralidade, por Drummond:


Antepassado

Só te conheço de retrato,
não te conheço de verdade,
mas teu sangue bole em meu sangue
e sem saber te vivo em mim
e sem saber vou copiando
tuas imprevistas maneiras,
mais do que isso: teu fremente
modo de ser, enclausurado
entre ferros de conveniência
ou aranhóis de burguesia,
vou descobrindo o que me deste
sem saber que o davas, na líquida
transmissão de taras e dons,
vou te compreendendo, somente
de esmerilar em teu retrato
o que a pacatez de um retrato
ou o seu vago negativo,
nele implícito e reticente,
filtra de um homem; sua face
oculta de si mesmo; impulso
primitivo; paixão insone
e mais trevosas intenções
que jamais assumiram ato
nem mesmo sombra de palavra,
mas ficaram dentro de ti
cozinhadas em lenha surda.
Acabei descobrindo tudo
que teus papéis não confessaram
nem a memória de família
transmitiu como fato histórico
e agora te conheço mais
do que a mim próprio me conheço,
pois sou teu vaso e transcendência,
teu duende mal encarnado.
Refaço os gestos que o retrato
não pode ter, aqueles gestos
que ficaram em ti à espera
de tardia repetição,
e tão meus eles se tornaram,
tão aderentes ao meu ser
que suponho tu os copiaste
de mim antes que eu os fizesse,
e furtando-me a iniciativa,
meu ladrão, roubaste-me o espírito.